REUTERS/Mike Segar
REUTERS/Mike Segar

Dependente dos EUA, ONU adota silêncio diante de Trump

Orientações são para "não comprar uma briga" com presidente americano agora

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2017 | 05h00

Em 2015, quando a Hungria anunciou que iria construir uma cerca contra refugiados sírios vindos da Sérvia, a ONU afirmou publicamente que tal barreira era uma “violação” das regras internacionais e queria “garantias de que Budapeste manteria suas fronteiras abertas”. Naquele mesmo ano, a entidade atacou propostas xenófobas por parte de líderes populistas europeus. 

Quando o governo de Donald Trump assina uma ordem para construir um muro na fronteira com o México, ameaça sair de tratados sobre direitos humanos, reduzir o financiamento à ONU e mesmo enterrar acordos, defende a tortura e ameaça outras religiões, a ordem nas Nações Unidas é a de manter silêncio. 

Com diplomatas do alto escalão da entidade, o Estado apurou que orientações foram passadas para que “não se compre uma briga” neste momento com Trump, sob o risco de ver a própria ONU ser marginalizada e seu futuro ameaçado. 

Os temores ficaram ainda mais explícitos ontem, quando a nova embaixadora americana nas Nações Unidas, Nikki Haley, assumiu seu cargo com um alerta de que os EUA vão “mostrar sua força”. “Estamos anotando os nomes daqueles que não nos apoiam.”

O Alto-Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), que por anos atacou discursos populistas, foi uma das entidades que adotaram a cautela para falar dos planos de Trump. “O Acnur tomou nota do anúncio feito pelo governo dos EUA sobre construir um muro na fronteira com o seu país vizinho, o México. O Acnur acompanhará de perto o impacto dessa decisão para pessoas que procuram refúgio nos EUA e continuará a se envolver de forma ativa e construtiva com o governo americano”, afirmou o órgão em comunicado.

Sem tecer críticas, a entidade afirmou que “espera que os EUA continuem seu forte papel de liderança e longa tradição de proteger aqueles que estão deixando seus países devido a conflitos e perseguições”.

Numa coletiva de imprensa ontem, em Genebra, o Acnur ainda deixou claro que não iria fazer mais comentários sobre o assunto. O orçamento da entidade revela parte importante do motivo da cautela. Em 2015, dos US$ 3,5 bilhões que o Acnur usou, US$ 1,3 bilhão veio da Casa Branca. O mesmo silêncio foi adotado pela Organização Internacional de Migrações que, desde sua fundação, foi sempre presidida por americanos. De seu orçamento de US$ 44 milhões por ano, ela depende de US$ 11 milhões vindos de Washington. 

O Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos também tem os EUA como seu maior contribuinte e recebe US$ 16,4 milhões dos cofres americanos, de um total de US$ 125 milhões em seu orçamento. Questionada sobre o que achava das políticas adotadas por Trump, a entidade preferiu “elogiar a sociedade civil americana” e disse ser necessário “esperar”. 

Fontes em Genebra confirmaram ao Estado que existe o temor de que um confronto direto com o novo governo americano signifique o fim do financiamento dos EUA. Mesmo sob Barack Obama, os americanos já acumulavam uma dívida de US$ 3,5 bilhões com a ONU. Se optarem por abrir uma briga e os pagamentos forem suspensos, diretores nas Nações Unidas admitem que programas inteiros seriam fechados.

No Congresso americano existe até mesmo uma proposta de lei retirando os EUA da ONU. Ainda que o projeto tenha chances mínimas de ser aprovado pelos legisladores, o que ninguém nas Nações Unidas quer é que Trump decida encampar as intenções do projeto, que é do Partido Republicano.

Se os americanos são os maiores doadores das Nações Unidas, sua contribuição à entidade representa apenas 1% de seu orçamento militar nacional.

Em um tom de ameaça, o novo governo americano deixou claro que é ele quem manda na ONU. “Tudo o que funciona, vamos melhorar; o que não funciona, vamos tentar consertar, e se qualquer coisa parecer obsoleta ou desnecessária, vamos acabar com ela”, alertou a nova embaixadora dos EUA.

 

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