Ian Salas / EFE
Ian Salas / EFE

Depoimento: Alcançar o continente gelado ainda é um desafio

Cientistas, militares e, eventualmente, jornalistas dependem das Forças Armadas para chegar lá

Roberta Jansen/RIO, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2019 | 16h16

Mais de cem anos depois de os primeiros homens chegarem à Antártida, alcançar o continente gelado continua a ser um desafio. Com toda a tecnologia moderna de geolocalização, transporte aéreo e navegação, a viagem demanda esforço, paciência, estômago forte para aguentar longas horas em avião ou navio, além de coragem para encarar o Estreito de Drake – a passagem mais perigosa do mundo.

Não há rotas comerciais regulares de avião ou navio para a Antártida. Cientistas, militares e jornalistas dependem das Forças Armadas para chegar lá. O único avião capaz de encarar o gelo sem derrapar e pousar em relativa segurança no continente é o Hércules C-130, a robusta aeronave militar de transporte de tropas.

São cerca de três horas de voo para cruzar 1.249 quilômetros, de Punta Arenas, no extremo sul do Chile, até a base chilena Eduardo Frei, na Península Antártica – porta de entrada no continente para a maior parte das missões científicas da América Latina.

Mas não é fácil obter uma autorização para voar. O clima é o grande senhor da Antártida, costumam dizer os militares que servem por lá. E é ele quem tem a última palavra sempre.  

Na região, o tempo é muito instável e muda com rapidez. Para que um Hércules decole de Punta Arenas é preciso ter uma janela de tempo bom de pelo menos seis horas – o que permite à aeronave ir e voltar, uma vez que não há lugar para o avião ficar na base chilena. Às vezes, no entanto, mesmo com a previsão favorável, o tempo pode mudar de uma hora para outra. Nesse caso, não há nada a fazer.

Como jornalista, estive duas vezes na Antártida, a primeira, em 2010, e a segunda, em 2013, um ano depois do incêndio que destruiu a estação científica brasileira. Da primeira vez, fomos e voltamos de avião sem maiores contratempos. A segunda vez foi bem mais complicada.

Foram três dias seguidos em Punta Arenas nos preparando para voar, sem sucesso. No último minuto, um alerta meteorológico imprevisto sempre impedia a travessia. No quarto dia, o avião, finalmente, decolou e chegou ao continente. Mas o tempo fechou abruptamente, impedindo o pouso. Foram duas horas sobrevoando a base chilena à espera de uma brecha.

Dentro do avião, éramos 46 pessoas, entre militares, cientistas e jornalistas. Começamos a fazer as contas sobre a autonomia de voo e a quantidade de combustível disponível. Finalmente, depois de sete horas, praticamente no limite da autonomia do Hércules, estávamos de volta a Punta Arenas, sem tocar em solo antártico.

Em poucos aeroportos do mundo se pousa totalmente por instrumento. É preciso ter uma visibilidade de 1,6 mil metros, pelo menos. Naquele dia, conforme o capitão me informou depois, a visibilidade era de 300 metros. E há ainda outras variáveis complicadas a serem levadas em conta, como o vento.

No quinto dia, houve uma nova tentativa. Apertados na barulhenta aeronave, que não tem revestimento acústico, todos nos demos as mãos, pedindo por uma viagem segura e uma aterrisagem no gelo. Era a última oportunidade do grupo. Se não fosse possível pousar, seria preciso voltar ao Brasil e dizer que a aventura tinha sido abortada.

Desta vez, foram três horas de um voo sem sobressaltos. Um tranco forte anunciou o pouso. A apreensão deu lugar a palmas, sorrisos e lágrimas. Depois de quase uma semana em Punta Arenas e mais de dez horas voando, chegávamos, finalmente, ao continente gelado.

Mas a volta nos reservava ainda novas surpresas. Sem acomodações na Antártida, todo o grupo estava abrigado no navio polar Ary Rongel, atracado em frente às ruínas da antiga estação, destruída pelo fogo.

O tempo instável continuou, e o avião não conseguia retornar para nos resgatar. O Ary Rongel, por sua vez, tinha de partir e ficaríamos sem pouso. A única opção era voltar no navio, uma viagem de quatro dias, cruzando o Estreito de Drake – o mar mais perigoso do mundo.   

Entre o Cabo de Horn, de onde partem os navios, até a Península Antártica existe apenas um pequeno arquipélago, a apenas 50 quilômetros do sul do Chile. Depois disso, é mar aberto. A ausência de terra firme permite a formação de uma corrente marítima que dá a volta na Antártida de forma livre e circular, tornando o fluxo das águas muito intenso.

Além disso, é na Antártida que se formam as frentes frias, o que pode complicar ainda mais as coisas. No ponto em que as massas de ar polar alcançam o oceano pela primeira vez, os ventos podem chegar a até 250 quilômetros por hora, e as ondas, a dez metros de altura. Dependendo da intensidade da tempestade, há risco grande para as embarcações.

No nosso caso, não chegou a tanto. Mas não foi uma travessia tranquila, longe disso. Por causa dos ventos e das ondas que chegaram a seis metros de altura, o navio adernou 28 graus para a direita e até 35 graus para a esquerda, segundo nos informou o comandante. No pior momento da travessia, cadeiras e mesas voaram com força pelo navio e tiveram que ser amarradas para evitar acidentes. Portas e armários batiam com força. Várias pessoas passaram mal e não conseguiram sequer levantar da cama.

O desafio é reconhecido pela própria Marinha do Brasil que outorga um diploma a quem conclui a travessia.

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