Nathalia Aguilar/EFE
Nathalia Aguilar/EFE

Depoimento: até agora não sofremos um colapso, estamos no limite

Médica diretora do segundo principal hospital do Paraguai a receber pacientes com covid-19 conta como foi a preparação para a pandemia e como mudou o perfil dos internados nos últimos meses

Dra. Yolanda González, diretora do Hospital Nacional de Itauguá*,

06 de março de 2021 | 18h09

“Há um ano, decretavam a pandemia e começamos a nos preparar (aqui no Paraguai). Pensamos que em poucas semanas muitas pessoas morreriam. Preparamos 18 camas e com a quarentena conseguimos preparar um andar com 120 camas. De dois andares que eram voltados para a Terapia Intensiva, transformamos 52 leitos em UTI e o resto em áreas de internação para a covid-19. 

Nos equipamos porque quase não tínhamos os equipamentos necessários e nos preparamos para a situação. A contratação de funcionários de saúde também ocorreu. Somos um hospital com 800 leitos para a covid agora. Começamos a receber os pacientes nas UTI e no fim acho que o Paraguai manejou bem a situação e temos poucos mortos. 

Atualmente, temos mais 200 leitos de internação, 68 leitos de UTI apenas para situações de dificuldade respiratória e mais 132 equipados para internação com respiradores, oxigenação central. Todos os equipamentos são de última geração, foi um investimento de mais de US$ 4 milhões. 

Tivemos que reformar a área de necrotério também, para ter dois separados, um voltado aos mortos em razão da covid e outro geral. 

Temos aqui pacientes de todos os tipos. Por isso temos entradas independentes para receber os pacientes com suspeita de coronavírus. Realizamos uma triagem e temos mais de 900 profissionais voltados apenas para a covid. Vale destacar que nenhum desses médicos ou enfermeiros se contagiou, não faltaram equipamentos de proteção pessoal. 

Nesses últimos três meses, com o aumento dos casos e a falta de cuidado das pessoas, começamos a sentir a falta de sedativos, principalmente para as UTIs. O uso desses medicamentos apenas no Hospital Nacional é de 8 mil ampolas de Atracúrio por semana e 12 mil de Midazolam. Então começamos a sentir a falta desses remédios e os médicos das UTIs passaram a usar outras drogas, como Propofol, por exemplo.

A quantidade de pacientes internados por dia varia de 15 a 20. Até agora não sofremos um colapso, estamos no limite e tomara que, com tudo que está acontecendo, não entremos em processo de colapso nos próximos 15 dias. Até porque, com o aumento de mais 100 leitos, acredito que não tenhamos médicos suficientes para poder atender nas UTIs. 

Somos um hospital de 4 mil funcionários no qual a maioria dos contágios ocorreu no entorno familiar e não por contaminação direta de pacientes. Temos agora nosso próprio laboratório de biologia molecular com capacidade de coletar 500 amostras por dia e processar 94 por hora.

Os contágios recentes depois das férias de muitos paraguaios e colegas que foram ao Brasil mudaram o cenário. A predominância de internados era de pessoas da terceira idade e agora vemos a predominância de jovens. Crianças continuam sendo minoria. Estamos trabalhando sem descanso.

Faz duas semanas que começamos a receber esses medicamentos que estavam faltando. Brigamos por meses contra a situação de falta de remédios e agora a resposta está chegando, então esperamos que continue assim. 

O Hospital Nacional recebeu 470 doses da vacina Sputnik, sendo que 220 foram para a primeira linha de profissionais de combate à covid. Agora anunciam a chegada da Coronavac. Vamos ver como será a distribuição.”

* Depoimento dado a Fernanda Simas

 

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