Depoimento: 'Guerra da Bósnia reduziu seres humanos a mera classificação étnica'

Allan Little, que cobriu o conflito para a BBC, relembra horrores da guerra e morte de seu cinegrafista.

BBC Brasil, BBC

06 de abril de 2012 | 10h45

Passados 20 anos desde a ofensiva das tropas sérvias em Sarajevo, o então correspondente da guerra para a BBC, Allan Little, relembra os horrores da Guerra da Bósnia e as marcas que o conflito deixou em sua vida:

"Há uma memória que me vem à cabeça de forma recorrente: a de um idoso emergindo de um bosque e vindo em minha direção. O belo vale verde ganhava cores de outono naquela manhã fria e úmida.

O idoso era um entre as 40 mil pessoas expulsas de suas casas na cidade de Jajce, centro da Bósnia, e parte de um grupo que caminhava havia dois dias para tentar ficar em segurança.

A Guerra da Bósnia deu ao léxico do conflito um novo e grotesco eufemismo: limpeza étnica. Aquelas eram suas vítimas mais recentes.

Perguntei ao homem sua idade; ele disse que tinha 80 anos. 'Me permita fazer uma pergunta, o senhor é muçulmano ou croata?', questionei. E a resposta que ele me deu ainda me envergonha enquanto ecoa na minha cabeça, décadas depois. 'Sou um músico', ele respondeu.

Era uma repreensão ao conveniente atalho étnico ao qual os jornalistas reduzem a vida de seres humanos completos e inocentes.

As democracias ocidentais entenderam mal a guerra. Durante anos. Eram antigas rivalidades étnicas. Todos os lados eram igualmente culpados. Eram os Bálcãs. Nada podia ser feito.

Não era verdade. Os refugiados não estavam fugindo dos combates. Em muitas partes, sequer havia combates - o desequilíbrio em favor das milícias era grande demais para que houvesse um confronto entre partes.

Em vez disso, o que havia era uma enorme máquina militar que ia de município em município, expulsando as pessoas de suas casas. Milhares foram mortos; outros tantos foram detidos em campos de concentração, alvo de torturas e estupros.

A guerra durou 44 meses. Uma média de cem pessoas morreram a cada dia, por mais de três anos e meio.

O Ocidente assistiu a tudo com uma indecisão angustiante até que uma única atrocidade - o massacre de 8 mil bósnios muçulmanos em Srebrenica - levou o mundo a agir. Mas Srebrenica foi diferente apenas em escala do que vinha acontecendo havia mais de três anos.

Poucos dias depois de eu ter conhecido o músico, fui envolvido na guerra de uma forma pessoal e dolorosa. Meu cinegrafista - por quem eu me sentia responsável - foi morto em um incidente ao qual eu sobrevivi.

Ele tinha 25 anos e era um corajoso e criativo cineasta de Zagreb. Era engraçado e uma agradável companhia, que odiava a guerra mas acreditava na necessidade de documentá-la de perto. Seu funeral foi de cortar o coração. Eu estava imobilizado pelo luto e pela raiva, momentaneamente conectado, visceralmente, às paixões que fomentavam a guerra - o ciclo de vingança e contra-vingança.

Jornalistas de guerra amam o que fazem e sentem culpa por isso. Mas esse sentimento às vezes é cansativo. Você pode chegar da guerra e ser desdenhado pela indiferença dos demais. As pessoas te perguntam sobre a guerra, mas prestam pouca atenção na resposta. Então você acaba procurando por outros que passaram pela mesma situação.

Ao caminhar por um parque em Londres, instintivamente você evita as áreas de grama, para o caso de haver uma mina terrestre. Você observa o topo dos prédios do centro da cidade em busca de franco-atiradores. E, ao mesmo tempo, você não vê a hora de voltar." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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