Jerome Favre/EFE
Jerome Favre/EFE

Depoimento: ‘Quarentena não pode durar para sempre’

Nos próximos anos, países devem relaxar e apertar as medidas de isolamento, várias vezes, até atingirmos a imunidade

Entrevista com

Gabriel Leung, infectologista da Universidade de Hong Kong

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2020 | 05h00

HONG KONG - O isolamento social está evitando a propagação da covid-19, mas não pode durar indefinidamente, pelo menos não sem prejudicar a economia e o bem-estar das pessoas. Mas é preciso ter um protocolo formal, com uma lógica fundamentada na ciência, para determinar quando e como as restrições devem ser relaxadas – e como reaplicá-las, caso o vírus volte.

A contenção falhou em todos os lugares. Em alguns – Wuhan e norte da Itália –, a epidemia se espalhou tão rapidamente que as autoridades tiveram de se concentrar na mitigação dos efeitos e no controle de danos. Em outros lugares, o isolamento funcionou: Hong Kong, Cingapura e Taiwan não tiveram tantos contágios locais. Pelo menos até agora.

Nos EUA e na Europa, trava-se um debate sobre como conter a disseminação do vírus para evitar um desastre de saúde pública, sem destruir a economia, minar a resiliência das pessoas e sua disposição para aceitar medidas desgastantes de distanciamento social.

Para começar, o primeiro objetivo deve ser proteger vidas, e isso significa evitar o colapso do sistema de saúde. Hospitais são a última linha de defesa. Quando sua capacidade de lidar com emergências é sobrecarregada, pouco adianta teorizar. Tudo o que se pode fazer é arregaçar as mangas, preparar os pacientes para receber medicação intravenosa e usar respiradores para salvar o maior número possível de vidas.

Mas, além desse ponto (de preferência, antes dele), o objetivo final deve ser deixar a epidemia se espalhar em ritmo lento, para ganharmos tempo até que todos adquiram imunidade. A questão só será resolvida quando pelo menos metade da população global se tornar imune ao vírus. Isso só pode ocorrer de duas formas: depois que um número suficiente de pessoas for infectado e se recuperar ou por meio de uma vacina.

A primeira opção significa uma catástrofe humanitária, com muitas mortes, principalmente de idosos e pobres sem acesso a atendimento médico. A segunda opção – a vacina – ainda leva pelo menos um ano. E medidas de isolamento não são viáveis por tanto tempo.

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No momento, é improvável que qualquer país tenha adquirido imunidade, mesmo os mais atingidos. Também não temos informações suficientes sobre pessoas infectadas que se curaram – é por isso que é tão urgente realizar sorologia ou hemograma para estudar quantos já passaram pela primeira onda de infecções e produziram anticorpos.

Por isso, devemos nos preparar para vários ciclos durante os quais medidas restritivas serão aplicadas e relaxadas, aplicadas e relaxadas novamente, para manter a pandemia sob controle a um custo econômico e social aceitável.

Qual a melhor maneira de fazer isso? Depende do país, de seus meios, da tolerância ao isolamento e da vontade coletiva de seu povo. Mas, para planejar um protocolo de abertura, são necessários dados robustos. 

O estágio da pandemia não pode ser determinado pela contagem diária de novos casos, pois eles não são confiáveis. Em vez disso, é preciso determinar a velocidade com a qual o vírus se espalha. 

Os casos relatados diariamente não dão o verdadeiro estado da propagação do vírus, porque os países testam em intensidades diferentes. Seria imprudente tirar uma conclusão sobre a transmissibilidade do vírus a partir de dados díspares. Além disso, entre o momento em que a infecção ocorre e o caso relatado há uma diferença de 10 a 14 dias. Isso porque o período de incubação é de cerca de seis dias. E também porque muitos países não testam – e quando testam, o fazem tarde, quando a pessoa já apresenta sintomas há algum tempo.

No entanto, é possível chegar perto de uma contagem de novos casos em tempo real. Dados extraídos de aplicativos e plataformas, bem como registros de cartões de crédito, podem ser usados para determinar como as pessoas se misturam – o que pode ser usado para inferir a probabilidade de transmissão do vírus. 

Com um pouco de criatividade, as ferramentas digitais podem ser transformadas em instrumentos de monitoramento de epidemias – sem se intrometer na vida de ninguém, já que a ideia é apenas estudar números agregados, não informações pessoais.

Tendo em mãos os dados em tempo real sobre a replicação do vírus, as autoridades podem ajustar com mais precisão as intervenções para manter o número de casos em um nível aceitável. Essa quantidade vai variar de acordo com a capacidade do sistema de saúde, da resistência da economia e do consentimento da população.

Mesmo que o sistema de saúde tolere muitas novas infecções, será que o mercado financeiro se assustaria? E por quanto tempo a população aceitaria as restrições necessárias para manter esse nível de infecção? As pessoas vão parar de cumprir o isolamento? O bem-estar será comprometido?

Não há resposta certa ou errada sobre a melhor maneira de responder a uma ameaça tão complexa. Após reduzir o número de novos casos, graças ao distanciamento social, é possível relaxar algumas medidas. Mas a sociedade deve estar pronta para voltar com restrições drásticas assim que os números subirem novamente. 

Então, as restrições devem ser relaxadas e reaplicadas, reaplicadas e relaxadas, até que a população desenvolva imunidade. O caminho daqui para frente é como um carro em uma estrada longa e sinuosa. É preciso pisar no freio e soltá-lo várias vezes, para seguir em frente sem bater, com o objetivo de alcançar com segurança o destino final. / NYT, TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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