Michael Kirby Smith for The New York Times
Michael Kirby Smith for The New York Times

Depoimento: Vida e morte dentro dos hospitais do Bronx

Jornalista do 'New York Times' registra por um dia a rotina de dois dos hospitais do Bronx, em Nova York, mais afetados pela pandemia de coronavírus 

Nicholas Kristof / The New York Times, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2020 | 03h00

Capítulo I - 'Se vissem isso, ficariam em casa' 

Terror, dor e solidão mesclam-se no ar com o coronavírus na “zona quente” da ala de emergência do Hospital Jack D. Weiler, no Bronx. A sala está lotada de pacientes cujo olhar assustado espia por cima da máscara de oxigênio enquanto lutam para respirar, como se estivessem afogando, enquanto nos perguntamos se conseguirão voltar a ver os seus entes queridos.

Nenhum membro da família pode entrar aqui, em um espaço que tem uma ocupação duas vezes maior o normal.  Cerca de 80 pacientes de coronavírus, de idades que variam dos 31 aos 97 anos, se espremem no local, uma cama ao lado da outra, alguns perto da morte.

Pacientes recém-chegados estão sentados em cadeiras à espera de macas, e olham em volta alarmados. Os médicos e os enfermeiros correm de um lado para o outro, protegidos por suas vestes especiais – alguns com equipamento improvisado, como os capacetes usados para solda sobre óculos de esqui –, a ponto de os seus colaboradores não os reconhecerem.

A verdade é que os médicos também estão apavorados e exaustos, sobrecarregados pela morte e pela própria impotência. A médica Nicole Del Valle, de 29 anos, me contou que o que a deixou completamente arrasada foi tratar uma mulher com covid-19 cuja irmã de 23 anos acabara de morrer. A médica telefonou para sua irmã mais nova e ordenou que não saísse de casa.

O dia todo no hospital, a profissional da saúde mantém seu comportamento tranquilizador para com os pacientes intubados, segura as suas mãos, luta pela vida deles – e depois, admitiu, volta para casa e chora.

Passando algum tempo nos hospitais de Nova York hoje constata-se como é estressante a prática da medicina em época de epidemia. Dois hospitais do Bronx muito afetados, o Welter e o Montefiore Medical Center Moses Division, permitiram que eu entrasse como jornalista e gravasse em vídeo nas alas de emergência por um dia, nas zonas mais terríveis onde são tratados os pacientes contagiosos.

Nós também produzimos um curta em vídeo: A esperança é que, quanto mais os americanos compreenderem a covid-19 e se comprometerem a manter o distanciamento social, salvarão a vida dos médicos e a própria.

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Os jornalistas raramente têm permissão para entrar nos hospitais nesta crise; repórteres e fotógrafos acham mais fácil entrar nas unidades do Exército no Iraque ou no Afeganistão do que falar com os médicos que combatem a covid-19. 

Os hospitais estão preocupados com as regras de privacidade, com os perigos de infecção e a possibilidade de histórias embaraçosas. Infelizmente, a escassez de coberturas corajosas no campo de batalha contra a doença implica, para muitos americanos, que o coronavírus continua algo distante e irreal – por isso, eles planejam um grande almoço de Páscoa ou uma reunião com os amigos para uma partida no parque.

A melhor maneira de compreender o coronavírus não é olhar os relatórios da Casa Branca, mas assistir ao desespero na linha de frente. O Bronx é um dos várioss lugares do país, e os pacientes que eu vi na semana passada eram de todas as raças - mas, principalmente, negros - e classes sociais. 

Na maior parte estavam com febre, com drenos, doentes demais para serem entrevistados. Mas não havia como confundir a sua angústia. “Odeio isto”, disse Chelsea Gifford, de 29 anos, médica assistente no Montefiore Moses.  “A gente experimenta uma sensação horrível na boca do estômago quando os pacientes dizem que estão apavorados e você não tem nenhum tratamento para oferecer”, lamentou. 

Chelsea lembrou de um paciente que chegara de um centro assistido. “Estou realmente apavorado”, ele afirmou. “Não quero estar com o coronavírus. Estou em um hospital, e há gente morrendo aqui."

Ela olhou nos seus olhos e segurou suas mãos. “Estamos fazendo o máximo para deixar o senhor confortável”, afirmou. “Nós compreendemos o seu pavor. Mas estamos aqui com o senhor. Vamos ajudá-lo”.

Chelsea tem dificuldade para dormir à noite e tem pesadelos – não de pegar o coronavírus, mas de contaminar os pais. Ela mora com eles, mas fica no seu quarto e usa seu próprio prato e talheres; fala com eles somente por uma porta fechada. Lava as mãos tantas vezes que nas suas palmas e pulsos surgiram irritações vermelhas.

Depois, ela vai trabalhar de carro e, no caminho, vê os nova-iorquinos frequentando normalmente os parques, tratando a pandemia como se fosse uma coisa leve – e sente raiva. “Se as pessoas vissem isto”, indignou-se, apontando gente assustada com grande dificuldade para respirar ao nosso redor, “ficariam em casa”.

Capítulo 2: Em Nova York, 4 a cada 5 intubados talvez não sobrevivam

O procedimento por excelência desta pandemia é a intubação, uma tentativa de último recurso para conectar a um respirador um paciente que não consegue respirar. É um método que salva vidas e assusta ao mesmo tempo – e infelizmente para a maioria dos pacientes, não funciona. Não há dados em larga escala, mas em Nova York, quatro em cada cinco pacientes de coronavírus que estão intubados talvez não sobrevivam.

Por esta razão, médicos e enfermeiros tentam dar aos pacientes a chance para telefonar aos entes queridos antes da intubação, cientes de que esta pode ser a sua última chance de falar. Mas às vezes, não há tempo suficiente. No hospital Weiler, vi uma mulher de 68 anos deteriorar rapidamente; o nível de oxigênio despencou. Uma equipe formada por um médico, um anestesista, uma enfermeira de emergência e um terapeuta respiratório se reuniram com urgência ao redor do leito vestindo trajes de proteção completos.

Para os trabalhadores da saúde, a intubação é uma operação que exige muito domínio de si porque faz com que o vírus se espalhe dos pulmões para o ar. No caso da mulher, o procedimento foi realizado em uma sala no fim da zona de perigo, com pressão do ar negativa para que o vírus permanecesse no local. Uma caixa de plástico foi colocada sobre a cabeça da paciente, e a enfermeira anestesista enfiou os seus braços nos buracos da caixa para realizar a intubação.

Perto da mulher estava um idoso que havia sido entubado anteriormente naquele dia, e estava declinando rapidamente. Para os pacientes de covid-19, os respiradores às vezes são a única saída – mas sem muita esperança.

E talvez nem mesmo a hidroxicloroquina, remédio contra a malária que o presidente Donald Trump saudou como um possível remédio “decisivo”. A maioria dos pacientes de ambos os hospitais que visitei estavam recebendo a hidroxicloroquina, às vezes associada  à azitromicina, mas as pessoas continuam morrendo em grandes números. Alguns médicos acham que esses medicamentos ajudam se administrados no início da doença, mas não falei com nenhuma pessoa da linha de frente que acreditasse que fossem decisivos.

Capítulo 3: O que mais impressiona é a compaixão e a coragem 

O mais impressionante nos hospitais não são os respiradores e tomógrafos computadorizados ou outras mágicas da alta tecnologia. Foi a compaixão e a coragem dos trabalhadores da saúde; e a intervenção que mais me comoveu foi, sem dúvida, a baixa tecnologia: alguém segurando a mão do doente.

Katherine Chavez, enfermeira do Montefiore Moses, lembra de um homem com pouco mais de 40 anos que nunca ficara doente. Ele foi entubado, e ela passou 12 horas ao seu lado  enquanto ele lutava pela vida. “Ele agarrava a minha mão, e eu só continuava dizendo que tudo estava certo”, rememorou.

O médico Michael Jones, que dirige o programa de profissionais residentes para as salas de emergência de ambos os hospitais que visitei, no mês passado, mandou um e-mail aos seus jovens médicos pedindo que eles fizessem o máximo para confortar os pacientes:

Tire alguns momentos, se puder, para conversar sobre as famílias do paciente, sobre sua vida, seus sonhos. Pergunte se há uma pessoa querida com que queira falar. 

E, por fim, duas coisas bem diferentes: segure a mão do paciente por um minuto quando ele estiver perto da morte ou estiver indo embora, fale o nome do paciente, e peça silêncio.

Isto nos ajuda a mantermos a nossa humanidade em tempos de uma crise tão grande e proporciona às famílias dos nossos pacientes algum conforto para que vejam que foram tratados com dignidade.

Os trabalhadores da saúde se encontram particularmente em risco de infecção e de morte, talvez porque absorvem quantidades enormes do vírus. Vários jovens médicos nos hospitais que visitei têm covid-19, e um deles se encontra na unidade de terapia intensiva.

O médico Michael Tarr, de 29 anos, ficou particularmente abalado depois de tratar de uma mulher de 27 anos que chegou gravemente doente com covid-19. “Fizemos todos os testes nela”, afirmou. “Tinha de haver alguma coisa subjacente que a tornava tão vulnerável. Mas não encontramos nada”. A paciente ainda vive com um respirador na UTI, ele disse, mas está mal.

Coragem não significa não ter medo; coragem  é o que os soldados mostram quando partem para o confronto direto na batalha, apesar dos seus medos. E é o que os médicos temerosos, como Tarr, ou enfermeiras preocupadas, como Katherine Chavez, mostram quando entram na zona quente todos os dias.

O mesmo ocorre com os médicos assistentes, os técnicos, os terapeutas respiratórios e o pessoal da limpeza (que enfrenta perigo semelhante, mas com menos crédito e um salário menor). Esses trabalhadores da linha de frente assumem riscos graves, e no entanto nós os decepcionamos.

“Há muita frustração”, admitiu Tarr. “Você gostaria de que um país avançado como os EUA agisse como um país de primeiro mundo. Mas o que vê são os EUA lutando para conseguir mais respiradores, ficando sem equipamentos que jamais pensamos que poderiam vir a faltar."

Trump desperdiçou dois meses que poderiam ter sido gastos reunindo equipamento de proteção para o pessoal, o PPE, oferecendo testes em massa e produzindo respiradores. Muitos Estados e cidades (incluindo Nova York) também se mostraram apáticos no começo. Esta é uma das razões pelas quais a taxa de letalidade por covid-19 chegou a mais de 50 por milhão de habitantes nos Estados Unidos, em comparação com 4 por milhão na Coreia do Sul, 1 por milhão em Cingapura e 0,2 em Taiwan. Médicos e pacientes morreram sem necessidade.

“Washington nos enganou, e agora pacientes e trabalhadores da saúde estão ficando doente e morrendo", disse Jones. "Poderíamos ter evitado toda esta situação se tivéssemos dado ouvidos a médicos e cientistas em vez de nos preocupar como política e ratings."

O PPE é escasso na maioria dos hospitais, mas os que eu visitei aparentemente pareciam dispor do suficiente e também de respiradores. Mas, enquanto estive no Weiler, os membros da equipe de repente se deram conta de que estavam ficando sem máscaras de válvulas de saco, necessárias para as intubações, e que só poderiam chegar de um fornecedor daqui a semanas. Por enquanto, uma busca desenfreada bastou; agora elas estão trancadas e só serão distribuídas na medida do necessário.

Os hospitais Weiler e Montefiore Moses, ao contrário de alguns outros, permitem que os membros da equipe tragam seus próprios equipamentos. Tarr comprou uma máscara de soldador no site da Amazon para colocar sobre os óculos de esquiador. Cerca de 23 mil óculos de esquiador foram doados  por esquiadores por meio de um grupo chamado Goggles for Docs. Eles são muito bem-vindos porque são confortáveis e protegem bem.

Capítulo 4:  Quem será deixado para morrer?

As alas de emergência dos hospitais se transformaram na era da covid-19. A mudança mais estranha é a dos alarmes de cabeceira que tocam continuamente: em apenas uma ala da emergência do Montefiore Moseds, 20 alarmes berravam simultaneamente.

Os médicos explicaram que a maioria são falsos alarmes, e que os sinais vitais do paciente podem ser monitorados pelas telas dos computadores na sala de enfermagem. Para desligar os alarmes, alguém precisa colocar o PPE e andar até o leito do paciente. “Você quer usar o PPE de maneira prudente”, observou David Esses, chefe da emergência. “Não pode queimar uma roupa toda vez que o alarme toca".

O ressuscitador cárdio-pulmonar, CPR, às vezes se torna superficial. No passado, os médicos gastariam 30 minutos tentando reanimar um paciente idoso, mas hoje cada compressão do peito pode provocar um jato tóxico de vírus capaz de matar mais alguém. Por isso, quando o sucesso é improvável, o CPR agora pode parar depois de alguns minutos.

Hoje, há também uma maior disposição de ter conversações sucintas sobre a morte, algo que os sistemas médicos nunca  fizeram muito bem. Com recursos escassos, os trabalhadores da saúde estão pensando no que aconteceria se precisassem racionar os respiradores: Quem conseguirá um e quem será deixado morrer?

Jones lembrou de uma paciente idosa que sofria há muito tempo de demência e que estava piorando com a covid-19. Normalmente, a equipe a teria incubado, mas neste caso, ele telefonou para a família: Queria mesmo que ele fosse em frente com o tratamento? No fim, a família decidiu que não fosse incubada, e a mulher morreu pacificamente no mesmo dia.

Capítulo 5:  'Por favor, fiquem em casa'

Com a sinfonia de alarmes, a equipe também é atormentada pelos anúncios convocando as equipes médicas para uma emergência após a outra. A atmosfera fica realmente tensa. A este ponto, o telefone vermelho toca. É o que recebe os chamados das ambulâncias anunciando que um paciente extremamente grave está a caminho.

O Hospital Weiler tenta abrir espaço transportando, em geral, os pacientes para o Montefiore Moses, mas as ambulâncias com novos pacientes chegam mais rapidamente, antes que os outros possam ser  transferidos. Do lado de fora do edifício há barracas para a triagem, mas às vezes há ainda engarrafamentos de macas na entrada da zona quente.

Da emergência, muitos pacientes são levados para a UTI. A do Weiler mais que dobrou em doentes desde o começo da pandemia, quando era calma e parada, muito diferente das outras emergências. A maioria dos pacientes estava sedada nos leitos em salas de pressão negativa: o único movimento era nas filas embaralhadas nos monitores eletrônicos. Uma paciente que se recuperara depois de dez dias no respirador acenou para mim feliz, mas ela foi a exceção; muitos pacientes de coronavírus que estão na UTI nunca voltam para casa.

Os nova-iorquinos morrem de covid-19 a uma média de quase 800 por dia, e provavelmente a cifra está aquém da realidade. Após uma morte, médicos preenchem a papelada  para o atestado de óbito e enfermeiros e técnicos preparam o corpo e colocam um cartão no dedo do pé da pessoa. 

 

Antigamente, o corpo era coberto com um lençol e iria para o necrotério; agora, é colocado primeiramente em um saco especial e, depois, em outro. Uma equipe leva o corpo para o necrotério do hospital e, posteriormente, em razão da falta de espaço, para um caminhão refrigerado do lado de fora, que é substituído a cada dois dias.

“Estamos trabalhando com as funerárias, para que venham buscar os corpos", indicou Linda Berger Spivack, diretora clínica da enfermagem do Weiler. “No entanto, as funerárias também estão extremamente sobrecarregadas”. 

A morte costuma ser uma transição nada dignificante e muito dolorosa, mas agora é particularmente brutal. Nós seres humanos evoluímos para nos apoiarmos uns aos outros, mas os vírus evoluíram para se aproveitaram desses vínculos – e, por isso, em uma época de epidemia, as pessoas muitas vezes morrem sozinhas.

A onda de covid-19 talvez agora esteja passando sobre Nova York – o que significa que logo irá atingir outros lugares que se mostraram demasiado displicentes com o distanciamento social. "Eles deveriam aprender com Nova York”, comparou Esses. “Porque se não aprenderem, acontecerá a mesma coisa lá, e quando se derem conta disso, será tarde demais."

Aqui estão as últimas palavras de Del Valle, a jovem médica que corajosamente tranquiliza os pacientes o dia inteiro e depois vai para casa chorar. Perguntei qual era a sua mensagem para os que moram em lugares ainda não atingidos pelo vírus, que duvidam das máscaras e do distanciamento social. “Os hospitais ainda estão sobrecarregados”, ela respondeu. “É realmente difícil, como médica de emergência, ver as pessoas sofrendo sem a família ao seu lado. Tem sido uma época muito difícil para todos", continuou. O que dizemos às pessoas é 'Por favor, fiquem em casa'”. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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