Depois da queda de Assad, EUA terão de trabalhar com o Irã

Análise: Vali Nasr / NYT

O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2012 | 03h05

O conflito na Síria atingiu um ponto crítico. Com ou sem Bashar Assad no poder, ele tem todas as características de uma longa guerra civil: protagonistas equilibrados, que não estão dispostos a um cessar-fogo, e potências preocupadas com os próprios interesses. Não há saída fácil e a situação ameaça a estabilidade do Oriente Médio. Portanto, os EUA precisam da colaboração dos aliados de Assad - Rússia e Irã - para dividir o poder após a queda do ditador. Até o momento, Washington considera os acontecimentos uma derrota do Irã, mantém-se à margem e tenta obter cooperação da Rússia. Alguns talvez pensem que o envolvimento iraniano adiaria as negociações nucleares, mas a fragmentação da Síria é uma ameaça mais grave do que o programa nuclear de Teerã.

Por enquanto, Assad tem considerável apoio e poder de fogo para continuar o combate e não mostra nenhum sinal de estar disposto a ceder. Alauitas, cristãos e curdos, assim como parte dos sunitas, ainda preferem Assad e temem sua queda. Juntos, esses grupos são metade da população da Síria. Enquanto isso, a oposição está dividida entre mais de cem grupos sem clara liderança. Mesmo que Assad renunciasse, a máquina militar e seus aliados sectários continuariam lutando. A Síria, então, se fragmentaria e a guerra decidiria o controle territorial, numa versão maior do Líbano nos anos 70. Haveria limpeza étnica, refugiados, desastres humanos e grandes oportunidades para a Al-Qaeda.

Ainda há tempo para impedir que o pior ocorra. O objetivo é chegar a um acordo sobre a divisão do poder pós-Assad, o que convenceria os sírios que ainda estão do lado dele a abandonarem a luta. Há razões para esperar que Rússia e Irã participem da negociação. Ambos desejam reconstituir seu prestígio no mundo árabe. O Irã teme pelo destino de 1 milhão de xiitas na Síria. A transição terá de incluir também a Turquia, que tem uma longa fronteira com a Síria e poder militar para influir na guerra.

Mas crucial mesmo é o Irã. Somente ele pode influenciar Assad. Atualmente, Teerã está num impasse: não pode abandonar o ditador nem o salvar. Mas há muito debate dentro do regime e muitos líderes iranianos defendem o fim do apoio a Assad. Enquanto os EUA não sentarem para negociar com Rússia e Irã, o conflito só crescerá. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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