Depois das primaveras

No ano passado, três países da África do Norte - Tunísia, Egito e Líbia - viveram a chamada Primavera Árabe: nos três casos, a população nas ruas derrubou velhas tiranias podres. Mas, uma vez derrubadas as casas, seria preciso reconstruí-las. E a reconstrução seguiu caminhos bastante diferentes, dependendo dos países.

Gilles Lapouge,

10 de julho de 2012 | 03h07

A Tunísia está aparentemente calma. Ela é dirigida por islâmicos, parte dos quais de tendência moderada, e outros salafistas, que gostariam de instaurar no país, tão agradável e tão aberto para a felicidade, a justiça implacável da sharia.

Na Líbia, que votou domingo, ao contrário, o mundo teve uma extraordinária surpresa. Esta pequena nação, próspera graças ao petróleo, sofreu durante 40 anos sob o punho de ferro de um indivíduo alucinado, Muamar Kadafi. Com a ajuda da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o país conseguiu derrubar e matar Kadafi.

Agora, está dilacerado entre violentas facções (islâmicos radicais, liberais, federalistas e diversas tribos mais ou menos autônomas). Por isso, temia-se o pior. Mas eis que aconteceu o milagre! Nas urnas, os líbios escolheram a sabedoria.

Eles votaram em massa nos liberais do ex-primeiro-ministro Mahmud Jibril. Reagrupados na Aliança das Forças Nacionais, eles estão na frente, às vezes com folga, incluindo as duas maiores cidades, Trípoli e Benghazi. Jibril e seus liberais receberam a recompensa da luta que travaram pela independência. Jibril não só foi onipresente durante os oito meses da revolução, como também foi o elemento determinante da intervenção da Otan. Em contraposição, sua rival, a Irmandade Muçulmana, que vivia no exílio há dezenas de anos, só voltou à Líbia com a eclosão dos tumultos, em fevereiro de 2011. Os "irmãos" eram portanto totalmente desconhecidos dos eleitores, que os menosprezavam, considerando-os "gente de fora".

Mas a política, as guerras e as revoluções adoram os paradoxos e as acrobacias. Assim, o mesmo Jibril, que hoje está à frente dos liberais e dos que derrubaram Kadafi, foi um estreito colaborador, nos anos 2000, de Saif al-Islam, nada menos que o filho de Kadafi, que hoje está na cadeia em Trípoli. É por isso que não está tão certo que, no futuro próximo, Jibril venha a ocupar novamente o cargo de premiê, por ele abandonado em novembro.

O Egito apresenta um quadro diferente. Lá, o combate opõe os militares que estavam ligados a Mubarak, velho tirano condenado à prisão perpétua, próximo da morte, à Irmandade Muçulmana, que venceu com ampla margem as eleições recentes (lembremos que o movimento nasceu no Egito antes da última guerra mundial). Portanto, pela norma, a Irmandade deveria constituir o governo. Ocorre que os militares, encarregados do governo provisório depois da queda de Mubarak, tomaram a precaução, um pouco antes das eleições, no dia 16 de junho, de dissolver o Parlamento. Estava criado assim um monumental imbróglio: um Parlamento regularmente eleito deveria entregar o poder à Irmandade Muçulmana. Entretanto, na verdade, esse Parlamento não podia entregar nenhum poder a quem quer que fosse por ter sido dissolvido pelos militares antes das eleições.

Desse modo, o novo chefe de Estado, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, foi ao mesmo tempo vencedor e vencido. Consagrado chefe de Estado pelas eleições, porém privado de todo poder porque os militares haviam dissolvido o Parlamento que constituía o fundamento do poder, Morsi se aborreceu. E como não tem reputação de homem dotado de grande coragem, a vitória parecia garantida para os militares.

Entretanto, esbarraram num "grão de areia". Morsi, o homem considerado medroso, reagiu como um leão. Anulou a dissolução do Parlamento decretada pelos militares e optou por desafiar o terrível Exército egípcio, que agora deu o troco por meio do tribunal. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É JORNALISTA

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