Vincent West/Reuters
Vincent West/Reuters

Depois de 1 ano, tragédia persiste em Haiti arrasado

Apenas 25% do dinheiro doado chegou ao país; prédios públicos, escolas e hospitais estão em ruínas e a cólera matou 3,6 mil pessoas

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2011 | 00h00

Um ano depois do terremoto que deixou 230 mil mortos, a situação no Haiti ainda é de tragédia. Um milhão de pessoas estão desabrigadas e estima-se que sejam necessários dez anos para reconstruir o país. Em março de 2010, governos de todo o mundo se reuniram para doar US$ 4 bilhões para o país, mas menos de 25% do dinheiro chegou.

"É uma vergonha o financiamento que temos hoje", disse ao Estado Elisabeth Byrs, porta-voz do escritório da ONU que coordena o trabalho humanitário no Haiti. "É lamentável dizer à comunidade local que não temos como tratar das pessoas com cólera por falta de dinheiro."

Entre os maiores doadores está a Casa Branca, que anunciou o envio de US$ 1,15 bilhão. Com Bill Clinton, ex-presidente dos EUA, assumindo o cargo de representante da ONU para o Haiti, a esperança era a de que a ajuda chegasse. Afinal, ele é marido de Hillary Clinton, chefe da diplomacia americana. No entanto, Clinton não convenceu outros países a abrirem os bolsos.

Dados divulgados ontem pela ONU mostram que a comunidade internacional e o governo local fracassaram em dar uma resposta à crise humanitária. O Haiti continua sendo um país em ruínas e precisa de US$ 11,5 bilhões para se reerguer. Mas, em 2011, a projeção é que quase nada avançará.

Sem coordenação entre os 1,4 mil projetos em andamento, sem governo e sem estratégia, o progresso na recuperação do país tem sido lento. Ao todo, 188 mil casas e 60% dos prédios públicos foram destruídos, 810 mil pessoas vivem ainda em barracas em acampamentos e 200 mil em casas semidestruídas.

A ONU e as ONGs admitem que não encontram lugar para construir novas casas na capital por causa dos escombros - não há máquinas para retirar os entulhos e a maior parte do interior do país não tem sistema de saúde, esgoto, escolas ou eletricidade. O resultado é um imobilismo total.

No ano em que o Haiti recebeu um volume recorde de ajuda externa, seu PIB encolheu 7%, segundo o Banco Mundial. Na melhor das hipóteses, segundo a ONU, o Haiti terminará o ano com "apenas" 650 mil pessoas vivendo em acampamentos. "A reconstrução pode levar de 10 a 15 anos", afirmou Matthias Schmale, subdiretor de programas humanitários da Cruz Vermelha.

Crise habitacional. "Há muito ainda que fazer. A crise dos desabrigados é a mais visível", afirmou Milliam Swing, diretor da Organização Internacional de Migrações. "Para centenas de milhares de pessoas, os acampamentos serão a realidade no futuro próximo."

Ao todo, um quinto dos funcionários públicos morreu no terremoto, o que deixou muitas regiões e cidades haitianas sem governo. Entre os que sobreviveram, muitos abandonaram o país. Para especialistas, isto contribuiu para que doadores tentassem implementar seus próprios programas de ajuda humanitária.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a destruição de hospitais e do saneamento básico é responsável pela epidemia de cólera, que afeta 170 mil pessoas e já matou 3,6 mil. Para a porta-voz da OMS, Fadela Chaib, a doença ainda não atingiu seu pico. "Em alguns pontos da zona rural, mais de cem casos são detectados por dia", disse.

No setor da educação, a situação também é crítica. Cerca de 80% das escolas da capital foram destruídas. De acordo com a Unicef, 80% das crianças voltaram às aulas, mas quase todas em salas improvisadas. .

O que mais assusta a ONU, no entanto, é que até hoje muitos corpos são encontrados nos entulhos das casas - estima-se que os escombros sejam suficientes para encher 8 mil piscinas olímpicas. Especialistas admitem que levará tempo para que o número final das vítimas seja conhecidos.

Culpados. Em meio ao fracasso, ONGs e governos tentam se eximir da culpa. Para a Oxfam, a comunidade internacional falhou no projeto de reconstrução do Haiti. "Os doadores não estão coordenando suas ações e nem consultando a população haitiana sobre quais são suas necessidades", diz o grupo.

A organização Rand acusa autoridades locais. Segundo relatório da entidade, a corrupção e os entraves burocráticos estão transformando o trabalho em um "pesadelo". Uma das queixas é a de que o governo do Haiti continua cobrando impostos para a entrada de máquinas para remover os escombros.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.