Depois de 14 anos, Venezuela elege hoje 1º presidente da era pós-Chávez

A Venezuela decide hoje nas urnas quem será seu primeiro presidente após 14 anos de Hugo Chávez. As seções de votação serão abertas às 6 horas para a primeira eleição sem o "comandante eterno". Cerca de 19 milhões de eleitores escolherão entre Nicolás Maduro, herdeiro político do líder morto em 5 de março, e Henrique Capriles, opositor derrotado por Chávez em outubro.

FELIPE CORAZZA , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2013 | 02h09

O processo de votação é eletrônico e o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) promete que os resultados serão conhecidos ainda na noite de hoje. Os eleitores precisam depositar um comprovante de voto em uma segunda urna e mergulhar o dedo mindinho em uma tinta indelével, para evitar fraudes.

Maduro é o favorito nas pesquisas. Na mais recente, encomendada pelo banco Credit Suisse e divulgada pelo instituto Datanálisis na sexta-feira, o bolivariano tem 44,4% das intenções de voto contra 37,2% do rival.

A vantagem de 7,2 pontos porcentuais indica uma vitória, mas também preocupa o comando de campanha de Maduro. A mesma pesquisa, há uma semana, apontava para uma margem de 16,5%. Analistas atribuem essa queda à escalada de denúncias e ofensas levada a cabo pelos chavistas.

Partidários do chavismo vêm acusando a Mesa da Unidade Democrática (MUD), coalizão que apoia Capriles, de pretender desconhecer o resultado das urnas. O comando da campanha opositora negou todas as acusações.

Uma margem ampla seria desejável para Maduro por dois aspectos: proporcionaria uma imposição inquestionável dentro do próprio chavismo, que tem divisões internas, e evitaria qualquer possibilidade de questionamento do resultado num momento de fortalecimento da oposição.

Após a morte de Chávez, houve pouco mais de 30 dias de campanha eleitoral. Maduro tratou de manter a imagem do "presidente eterno" e "comandante supremo" como a grande referência de sua candidatura.

Slogans como "Chávez, eu te juro, meu voto é para Maduro" eram entoados nas concentrações populares por milhares de pessoas usando camisetas com a efígie do líder morto.

O site www.madurodice.com, criado com o objetivo de contar as citações a Chávez durante as falas do atual presidente interino, registrou 7.259 ocorrências ao longo da campanha.

A oposição acusa o governo de usar recursos públicos na campanha - veículos oficiais levaram militantes a comícios e os meios de comunicação governamentais fizeram campanha aberta por Maduro.

Problemas. As urnas também definirão hoje quem será o herdeiro de um país em crise. Analistas e militantes, chavistas e oposicionistas, concordam em dois pontos: há urgência em trabalhar as questões da economia e da segurança pública.

A Venezuela ainda enfrenta escassez de alimentos, uma inflação que está projetada para alcançar quase 40% em 2013 e um câmbio paralelo que se agravou ainda mais com a recente desvalorização da moeda decretada por Maduro enquanto Chávez ainda estava internado.

Segundo disse ao Estado o cientista político Oscar Reyes, a solução passa por uma mudança na forma como o país emprega a renda da exploração petrolífera. "O dinheiro do petróleo já não chega para que compremos tudo de fora. Temos de criar força produtiva para alimentos."

A má condução do setor petrolífero tem raízes na política externa, acredita o analista José Vicente Carrasquero, da Universidade Simón Bolívar. "É preciso renegociar e parar de dar petróleo de presente a países como Cuba e Nicarágua", afirma.

Segurança.  O novo presidente venezuelano terá de enfrentar, ainda, uma situação de violência endêmica. Segundo a ONG Observatório Venezuelano da Violência, o país encerrou 2012 com uma taxa de 73 homicídios para cada 100 mil habitantes.

Cerca de 22 mil pessoas perderam a vida em crimes violentos no país durante o ano passado. Roubos à mão armada e sequestros são comuns nas maiores cidades como Caracas e Maracaibo. Os dois candidatos prometem intensificar a campanha de desarmamento iniciada pelo próprio Chávez, em decreto que restringiu a venda de armas de fogo a civis no ano de 2012.

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