Depois de alguma demora

O presidente Barack Obama falou! Enfim! Ele estava revoltado com o patife de Trípoli que mandou atirar em seu povo, que chamou mercenários para assassinar as mulheres e as crianças de Tobruk, Benghazi ou Trípoli. Imediatamente, os corajosos europeus (o próprio presidente francês, Nicolas Sarkozy, quem diria!) acertaram o passo com Obama e disseram que esse Muamar Kadafi não é mesmo frequentável.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

Por que Obama esperou tanto tempo para adotar medidas contra o "matador"?

Primeira dificuldade: os cidadãos americanos e europeus na Líbia. Nenhuma dúvida de que esses estrangeiros estariam em perigo se fossem tomadas medidas, por exemplo, contra os gigantescos bens do "clã Kadafi".

E quais medidas para obrigar Kadafi a desaparecer? Pode-se adotar congelamento dos bens, a suspensão das as relações econômicas, processos judiciais. Mas não nos iludamos. "Como esperar que um homem que manda disparar sobre seu povo seja intimidado por sanções?", questionou um diplomata europeu em um posto na região.

Eis por que, embora a conduta de Kadafi enoje quase todos os chefes de Estado, poucos países ousam avançar sozinho. Tanto os Estados Unidos quanto a Europa buscam um consenso internacional. Um embaixador disse: "Teremos de escolher entre decisões ruins e outras piores". Há quem evoque a ideia de uma intervenção militar internacional com fins humanitários. Os profissionais duvidam.

O ex-representante americano na ONU, Charles Dunbar não é contra, mas com a condição de que os EUA não assumam o comando. Outros são menos incisivos. Laurence Pope, ex-consultor do Departamento de Estado em Washington, advertiu: "Isso daria ao regime de Kadafi a legitimidade que ele perdeu e reduziria as chances de uma mudança democrática no mundo" (percebe-se que a sinistra empreitada no Iraque decidida por George W. Bush para instalar a democracia em Bagdá abriu os olhos dos diplomatas americanos).

Enquanto as potências hesitam, ponderam, anunciam reuniões, a História continua. E a todo vapor. É a especialidade dessas revoluções espontâneas, dessa embriaguez inspirada que nenhum partido, nenhum chefe pilota. Elas são imprevisíveis.

Outra madeira. Recordemos: a Tunísia desmoronou sem aviso prévio. O poderoso Hosni Mubarak, no Egito, desapareceu de repente. Kadafi é feito de outra madeira. Mas essa madeira tão dura pode quebrar de um segundo para outro ou resistir a todos os assaltos sob risco de perecer com seu povo.

De quem é a vez? Bahrein? Iêmen? Jordânia? E a Argélia de Bouteflika? E o Irã dos aiatolás, não correrá o risco de uma sublevação? E a Mauritânia? E o Marrocos? O perigo - ou, talvez, a esperança - ronda todo o Oriente Médio, todo o Norte da África. Mas será que a África Subsaariana também não pode ser arrastada para o turbilhão?

Afinal, foi o próprio Kadafi quem trabalhou outrora para fazer do Norte da África e da África Subsaariana um mesmo conjunto. Ele se fez consagrar, num de seus episódios paranoicos, "rei dos reis africanos". Queria ganhar a cabeça de um bilhão de africanos com petrodólares saídos do deserto da Líbia.

Um país do sul já deu sinais de intranquilidade: Djibuti, antiga colônia francesa, no Chifre da África Oriental. O presidente Ismael Omar Guelleh enfrenta manifestantes, os prende, os solta.

A agitação também se espalha por dois países da África negra, o Gabão e Camarões. Palavras de ordem circulam pelo Facebook. Nada comparável às explosões dos países árabes, mas sinais prenunciadores talvez. No Cairo, viu-se um ex-ministro do Gabão, André Mba Obame, juntar-se aos revolucionários. Ele não retornou ao Gabão.

Mais para o sul da África, o Zimbábue (antiga Rodésia) vive sob o poder absoluto de um tirano muito perverso, Robert Mugabe, que reina, melhor dizendo, oprime há 30 anos. Lá, os adversários de Mugabe realizaram uma reflexão sobre o tema das "insurreições" na Tunísia e no Egito, mas se deram mal. Mugabe ordenou a prisão de 46 deles. Isso ocorreu na véspera do 87.º aniversário do presidente Mugabe. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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