Depois de Assad

Por trás do conflito na Síria, cujos desdobramentos estamos acompanhando, dissimulam-se talvez futuras guerras e, certamente, remanejamentos geopolíticos que um dia redesenharão a geografia do Oriente Médio. Prever os novos equilíbrios que virão é uma missão impossível, porque cada dia de guerra modifica o quadro, favorece ou compromete ora um campo ora outro.

PARISGILLES LAPOUGE, É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2012 | 03h09

Uma coisa é certa. Nos primeiros dias, há mais de um ano, a revolta contra o governo de Bashar Assad era o movimento visceral, primário, heroico de um povo que se levantava contra a tirânica família e o clã que a sustenta: a minoria muçulmana dos alauitas. Com o tempo, os dois lados acrescentaram à sua luta uma dimensão de início étnica, política e, por fim, religiosa.

Hoje, estamos na presença de uma vasta batalha entre os dois ramos dominantes do Islã: de um lado, os xiitas, que desencadearam uma onda de conquistas a partir da revolução de Khomeini, no Irã, em 1979. A pregação khomeinista triunfou por muito tempo. Os xiitas de Teerã, então, procuraram garantir sólidos satélites - na Síria, de início, com a família Assad, mas também no Líbano, com o Hezbollah, e na Palestina, com o Hamas.

Mais recentemente, entretanto, o campo sunita lançou um contra-ataque sob a liderança da poderosa Arábia Saudita, do Catar e depois da Liga Árabe e da Turquia. É evidente que um dos objetivos da diplomacia aliada, além da vontade de pôr fim a um massacre execrável, é enfraquecer o Irã, inimigo dos ocidentais, privando-o de um aliado regional essencial, a Síria, e também do Hezbollah.

Então, se Assad cair, um dos grandes beneficiários de toda essa confusão seria ou não Israel, ameaçado tanto pelo Irã quanto pela Síria, pelo Hezbollah e pelo Hamas? A família Assad e seu clã não são xiitas, mas são próximos deles. São alauitas. Eles compartilham com os xiitas uma virulenta animosidade contra os sunitas.

Curiosamente, os alauitas que controlam há 40 anos a Síria por meio da família Assad estão longe de ser maioria na Síria. Os alauitas representam apenas 10% da população síria. O restante é quase totalmente sunita (também há uma pequena minoria cristã).

Os alauitas, ou seja, o Islã do clã Assad, são desprezados pelos sunitas, que os consideram um pequeno "cisma gangrenado de exoterismo". "Os alauitas não acreditam em Deus", afirmam os sunitas sírios. "Nem em seu profeta. Eles não têm nenhuma moral. Suas mulheres andam com a cabeça descoberta e eles tomam bebidas alcoólicas."

Resta um buraco negro, uma pergunta à qual hoje ninguém pode responder: nesse mosaico de clãs que se originaram do Islã, qual pode ser o lugar dos islâmicos fanáticos, os do terrorismo, os dos jihadistas e os da Al-Qaeda? Difícil responder. Evidentemente, nunca faltará a Assad a oportunidade de afirmar que os combatentes da Al-Qaeda já começaram o trabalho, infiltrando-se nas fileiras dos insurgentes. A cada dia que passa, Damasco anuncia a chegada de novos esquadrões de jihadistas.

Aparentemente, trata-se de informações exageradas. Em sua quase totalidade, os sunitas sírios que combatem os alauitas de Assad são muçulmanos observantes, conservadores. Entretanto, é verdade que na Arábia Saudita os islâmicos fanáticos mantêm posições fortes.

Às vezes, é possível observar nas zonas rebeldes da Síria pregadores itinerantes um tanto misteriosos que, com o Alcorão na mão, fazem estranhos sermões, provenientes em linha direta do Golfo, da Arábia Saudita e talvez de muito mais longe. Esses pregadores não são muito numerosos. Não hoje, pelo menos. No entanto, se a guerra síria se prolongar por muito tempo, tudo isso poderá mudar de figura. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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