Chip Somodevilla/Getty Images/AFP
Chip Somodevilla/Getty Images/AFP

Depois de Biden ficar exposto a Trump, sua equipe se mostra evasiva quanto às questões de saúde

A transparência adquiriu um novo significado na disputa presidencial diante das informações conflitantes sobre o estado de saúde de Trump e o fato de o seu rival democrata ter ficado exposto durante o debate

Thomas Kaplan, Apoorva Mandavilli e Katie Glueck, The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2020 | 09h01

WASHINGTON - Há meses, Joe Biden vem se esforçando para ser um exemplo de comportamento na era do coronavírus. Ele usa máscaras em público e não realiza comícios para grandes multidões. E quando discursa, os jornalistas sentam-se longe um do outro, com círculos brancos no chão marcando seu espaço.

Essas ações até agora mantiveram Biden saudável e capacitado para continuar sua campanha, ao passo que o presidente Donald Trump, que ridicularizou as máscaras e participou de grandes eventos, precisou ser hospitalizado com covid-19.

Mas além dos exemplos públicos de precauções de segurança, os protocolos de saúde de Joe Biden têm sido mantidos em segredo, com os coordenadores da sua campanha se manifestando pouco sobre as medidas adotadas para proteger o candidato democrata de 77 anos.

Seus assessores não respondem à pergunta se Biden realiza testes diariamente. Afirmam simplesmente que ele tem sido testado regularmente. Até o último fim de semana, eles vinham prometendo informar o público apenas se o resultado de um teste fosse positivo. Mas então, na noite de sábado, depois de dois dias recusando-se a fornecer detalhes sobre esses procedimentos no caso de Biden, os responsáveis da campanha se comprometeram a divulgar os resultados de todos os testes a que ele se submeter, afirmando que no domingo seu teste foi negativo.

A transparência adquiriu um novo significado na disputa presidencial diante das informações conflitantes sobre o estado de saúde de Trump e o fato de o seu rival democrata, que também se insere numa faixa etária particularmente suscetível à covid-19, ter ficado exposto ao presidente durante o seu debate que durou 90 minutos, na terça-feira. 

Biden, que continua na frente nas pesquisas nacionais e em muitas realizadas em estados considerados decisivos na eleição, ainda se defronta com a possibilidade de um teste positivo. Ele segue fazendo campanha em vez de seguir as diretrizes de saúde pública no sentido de respeitar uma quarentena, e sua campanha é evasiva quanto aos protocolos de saúde que ele tem obedecido.

Essas perguntas sobre a saúde de Biden surgem num momento em que ele se defronta com uma realidade política sem precedentes: se eleito em novembro, ele será o presidente mais velho a ocupar a Casa Branca, e enfrenta diariamente o risco pessoal de uma pandemia que já matou mais de 209 mil pessoas nos Estados Unidos. O diagnóstico de Trump e a aparente ameaça à saúde que ele colocou durante um debate onde falou ou gritou com frequência, vem forçando a campanha de Biden a debater quais serão seus próximos passos e divulgações com relação à saúde do candidato democrata.

"Do mesmo modo que não discutiria nossos planos de segurança aqui na TV nacional, não vou falar sobre os trabalhos internos relativos aos nossos planos de segurança", disse Symone D. Sanders, assessora da campanha de Biden, no programa State of the Union, da CNN, no domingo, quando indagada o que fará a campanha no caso de Biden ser testado positivo.

As abordagens no tocante à transparência e exatidão dos fatos que as equipes dos dois candidatos presidenciais têm adotado não se comparam. Biden, que já foi vice-presidente, disputa uma eleição com um presidente no cargo que tem um longo histórico de contar mentiras e cuja Casa Branca retém informações cruciais e emite comunicados suspeitos ou equivocados sobre a saúde do presidente.

Durante a campanha de 2016, Trump divulgou uma carta do seu médico afirmando que ele "era o indivíduo mais saudável já eleito para presidente". Mais tarde, o médico afirmou que Trump havia ditado os dizeres da carta. E, neste fim de semana, a Casa Branca divulgou mensagens contraditórias sobre o estado de saúde de Trump, 74 anos, e mesmo sobre quando ele testou positivo para o vírus, aumentando a incerteza no país.

No caso de Biden, ser totalmente transparente com o público não é apenas um comportamento ético, mas também inteligente, disse Kelly Michelson, diretora do Center for Bioethics and Medical Humanities da Feinberg School of Medicine da Northwestern University.

"Isto gera confiança na comunidade, ajuda a acalmar os temores e preocupações. E não vejo porque não ser transparente sobre o que está ocorrendo", disse ela. "Acho que é importante que o público saiba o que vem verificando".

Segundo Whit Ayres, que faz pesquisas para os republicanos, a saúde do presidente e do seu rival democrata são de interesse público vital".

"Os dois candidatos devem estar disponíveis. Os eleitores indecisos se preocupam com a saúde do presidente em exercício ou do potencial presidente no meio de uma pandemia feroz como esta".

Meses atrás a campanha de Biden não se manifestava muito sobre os planos dele quanto a fazer testes relativos ao coronavírus. Logo depois da Convenção Nacional Democrata, em agosto, um coordenador do alto escalão da campanha disse que Biden não havia se submetido a testes para o coronavírus apesar de o teste  ter sido exigido de outras pessoas próximas dele quando proferiu seu discurso aceitando a indicação. Um dia depois, foi anunciado que ele e a senadora Kamala Harris, sua vice, seriam testados "regularmente", como também os membros da equipe que se relacionam com eles.

Por volta do meio-dia da sexta-feira a campanha de Biden anunciou que ele havia sido testado negativo para o vírus e distribuiu declaração do seu médico 11 horas depois de Trump anunciar que havia testado positivo.

"Desde o início da pandemia, nossa campanha vem se pautando pelo exemplo e priorizado a saúde e a segurança dos nossos apoiadores, nossa equipe e o público em tudo o que fazemos", declarou T.J. Ducklo, porta-voz da campanha de Biden, no domingo. "Adotamos medidas extraordinárias de modo a assegurar a realização de uma campanha segura".

Teneille R. Brown, professora de Direito na Universidade de Utah, afirmou que a estratégia da Casa Branca de manter segredo quanto ao que vem ocorrendo tem semeado muita desconfiança na sociedade e que "Biden e sua vice Kamala Harris prestarão um grande serviço nos oferecendo uma abundância de informações".

"Temos uma real perda de confiança nos comunicados vindos de nossos líderes", disse ela. "Seria muito importante recriar a confiança de que há absoluta transparência quanto a tempo, riscos e exposição".

A decisão da campanha de Biden de ele continuar com uma planejada viagem para Grand Rapids, Michigan, na sexta-feira, depois de testar negativo, levantou dúvidas e ameaçou corroer a mensagem do candidato democrata de que coloca a saúde e a segurança acima da política.

Para especialistas, ao prosseguir com a campanha depois de ficar exposto a uma pessoa infectada, Trump, na noite de terça-feira, Biden descumpriu uma regra importante de saúde pública. Mas este também foi o caso do vice-presidente Mike Pence, que se reuniu com Trump no Salão Oval na terça-feira e pretende continuar sua campanha.

De acordo com o Centros de Prevenção e Controle de Doenças, qualquer pessoa que teve contato próximo com alguém infectado deve "permanecer em casa em quarentena, uma vez que os sintomas podem aparecer de dois a 14 dias depois da exposição ao vírus", e deve "se manter distante dos outros".

"Não vejo razão porque seria diferente no caso de Biden, Trump, ou qualquer outra pessoa. Acho que ele, como qualquer cidadão, deve respeitar as diretrizes emitidas pelo CDC", disse Kelly Michelson, referindo-se ao candidato democrata.

Irwin Redlener, um especialista em resposta à pandemia do Earth Institute da Universidade de Colúmbia, que participou por um curto período da comissão consultiva de saúde pública da campanha de Biden, disse estar satisfeito com o fato do democrata e de Trump se manterem a uma distância suficiente durante o debate. Ele sugeriu que a equipe de Biden compartilha da mesma opinião.

"Eles acham que ambos estavam seguindo as regras e não ficaram preocupados com isto", disse Redlener, chamando a equipe de Biden de "obcecada" com as precauções de segurança. Mas ele aconselha testes adicionais, dizendo que "Biden deve ser testado diariamente e eles devem continuar seguindo as diretrizes do CDC de Trump, ironicamente"./ Tradução de Terezinha Martino

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