Depois de Cuba

Irã também merece a atenção de um presidente americano que ainda se imagina um transformador

DAVID AARON, MILLER, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2014 | 02h00

O que Cuba e Irã têm em comum? Bem... vejamos. Ambos são países autoritários chefiados por ditadores velhuscos; ambos alegam ideologias revolucionárias; ambos têm relações com os EUA regidas por meio século de hostilidades; ambos têm cidadãos americanos como prisioneiros/reféns; ambos têm populações jovens cheias de energia querendo agir; ambos estão sob sanções americanas; e ambos representam problemas complexos para políticos americanos e certos aspirantes à candidatura presidencial.

Ambos mereceram a atenção de um presidente americano que ainda se imagina um transformador e parece determinado a deixar um legado de relações estabelecidas com cada um numa base nova e histórica.

Um feito e outro por fazer? As diferenças entre Cuba e Irã são muitas. A iniciativa cubana do presidente americano Barack Obama pode ser um claro sinal de onde ele pode querer chegar com o Irã sobre a questão nuclear nos próximos meses. Eis o que liga as situações de Cuba e Irã - ao menos na ideia do presidente no momento em que ele estuda a promoção de um acordo com o Irã.

Legado: com as questões domésticas confusas e os republicanos prestes a assumir o controle das duas casas do Congresso, este presidente está determinado a agir; não esperar. Some-se a isso a Iniciativa sobre Mudança Climática com a China e a ação executiva sobre imigração, e o quadro está formado.

Aliás, a política externa tem sido um tradicional refúgio presidencial quando as coisas em casa ficam excessivamente complicadas. E Obama seguiu esse caminho. Danem-se os do contra, os céticos e ideólogos no Congresso, e os torpedos parlamentares; à frente a todo vapor para conseguir um acordo. O tempo está se esgotando para Obama, e ele não passará mais por esse caminho.

Então por que não agir sobre Cuba e tentar com o Irã também, um prêmio ainda maior? E como já assinalei anteriormente, é provável que tanto o presidente como o secretário de Estado John Kerry vejam uma oportunidade adicional na questão palestino-israelense se as eleições israelenses de 15 de março resultarem num governo disposto e capaz de tomar decisões sobre o processo de paz.

Segredo: 18 meses de preparação secreta e talvez mais para a iniciativa sobre Cuba, aparentemente tendo os canadenses como intermediários e facilitadores e com ajuda até do papa. E por que não? Coisas sérias podem ser conseguidas fora das vistas do público se o momento for propício. Pode-se esperar mais do mesmo com Teerã. O Plano de Ação Conjunta surgiu não como um resultado das ruidosas conversações do P-5+1, mas do exercício diplomático silencioso. Se houver uma chance de acordo com os mulás persas, ele ocorrerá provavelmente dessa mesma maneira.

Mudança de baixo para cima: o presidente adoraria se livrar dos irmãos Castro e do regime cubano, e dos mulás. Mas sabe como seria difícil acabar com os mulás por meio de pressões externas. Como a Revolução Verde de junho de 2009 no Irã revelou, nem mesmo as pressões internas conseguiram. A lógica com Cuba é diferente. Obama sabe que transformações e mudanças rápidas não são possíveis. A lógica aqui - por mais falha que seja - é supor que as aberturas econômicas e culturais com o tempo criarão pressões internas por mudança. Que o povo cubano ao sentir mais o gostinho do mundo exterior e com maiores oportunidades de viajar estaria, então, mais disposto a cobrar mais liberdades e esperar mais de seus líderes.

Não estou convencido de que isso realmente funciona. Mas esta é a abordagem do presidente. E poderá se aplicar também ao Irã.

Afinal, o objetivo americano não é pôr fim ao programa nuclear iraniano, e sim ganhar tempo. Mas ganhar tempo com que fim? Os cínicos poderiam dizer que o presidente espera terminar seu mandato sem ter de atacar o Irã ou antes que seus críticos possam dizer que os mulás conseguiram a bomba nuclear durante o seu mandato. Outros poderiam ver uma lógica diferente - que com o tempo o público iraniano se acostumará ao alívio das sanções e a integração na comunidade internacional e aí pressionará seus líderes para não voltar à condição de pária. E com o tempo, o Irã moderaria sua visão sobre armas nucleares e outros assuntos.

O argumento me parece forçado. Mas suspeito que o propósito do presidente é ser, no mínimo, o iniciador do que os otimistas poderiam chamar de um começo histórico.

Criar fatos: o presidente não pode derrubar o embargo, mas pode usar, e usou, seus poderes para abrir uma porta bem grande para Cuba. Alguns membros do Congresso podem tentar fechá-la, mas ele pôs em movimento um processo difícil de reverter. A questão nuclear iraniana pode ser menos manejável. Uma verdadeira novidade requereria um acordo abrangente sobre uma questão complexa e concessões significativas teriam de ser feitas por ambos os lados.

E diferentemente da relação bilateral cubano-americana, há outras partes em ação, entre elas o comportamento problemático de israelenses e iranianos sobre várias questões regionais que provavelmente complicarão as coisas. Mas o objetivo do presidente ainda será criar um fato consumado e deixar que o Congresso assuma a responsabilidade caso tente bloquear a implementação.

O que estamos testemunhando é um presidente que já marcou três gols basicamente sozinho - mudança climática, reforma da imigração e Cuba, e se deu bem. Com isso ele estressou o sistema e irritou muita gente, mas a seu ver agiu conforme seus princípios e o que acredita que seja do interesse nacional. As iniciativas chinesa e cubana foram relativamente simples em comparação com a questão nuclear iraniana.

Mas fiquem atentos: Obama agora se soltou e está determinado a construir seu maior legado - um acordo com aqueles astutos mulás iranianos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É ESPECIALISTA EM ORIENTE MÉDIO

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