Depois de revolução no Egito, cristãos coptas temem perseguição

Durante regime Mubarak minoria religiosa era vítima de discriminação, mas agora ela tem medo que maioria muçulmana possa ser ainda menos tolerante

O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2011 | 03h06

As imagens transmitidas das ruas do Cairo no mês passado não foram tão pavorosas quanto as da captura e morte brutal do coronel Muamar Kadafi, mas foram igualmente selvagens. Foram um lembrete sóbrio de que movimentos populares em algumas partes do mundo, por mais euforicamente que comecem, podem sofrer reviravoltas feias e inquietantes.

Quando muçulmanos liberais juntaram-se a cristãos coptas marchando pela área de Maspero no Cairo em 9 de outubro para protestar contra o incêndio criminoso de uma igreja copta, bandos de arruaceiros muçulmanos conservadores brandindo paus e espadas começaram a atacar os manifestantes. As forças de segurança egípcias que haviam aparentemente intervindo para conter a violência, arremessaram deliberadamente seus veículos armados contra a multidão copta e fizeram disparos indiscriminados com munição de verdade.

As autoridades militares egípcias proibiram a cobertura noticiosa ao vivo do evento, e as evidências de caos foram rapidamente limpadas da cena. Mas o massacre, no qual ao menos 24 pessoas foram mortas e mais de 300 feridas, foi o pior exemplo de violência sectária no Egito em 60 anos.

Não faltam narrativas conflitantes. Alguns alegam ter ouvido um apresentador de televisão encorajar "egípcios honrados" a sair em socorro de soldados sob ataque de uma turba de coptas. Outros ouviram um muçulmano gritar que tinha matado um cristão.

Incapaz de explicar exatamente por que os eventos se tornaram violentos, o então primeiro-ministro interino do Egito, Essam Sharaf, afirmou que o massacre de civis não foi o produto de violência sectária, mas uma prova de que havia "mãos ocultas" envolvidas.

Eu cresci num Egito que inventava mãos ocultas para todo lugar que se olhasse. Por conta da condição cada vez mais precária de minha família de judeus vivendo no Egito de Nasser, meus pais proibiram-me de piscar minha lanterna várias vezes à noite ou de escrever mensagens invisíveis com tinta de limão na escola secundária. Esses eram truques de espiões, e os judeus eram eternamente vistos como espiões após o "Caso Lavon" de 1954, em que a inteligência israelense recrutou judeus egípcios para detonar bombas no Egito.

Infelizmente, a expressão "mãos ocultas" continua fazendo parte da retórica política do Egito mais de 50 anos depois - um convite para qualquer egípcio escrever em nome do seu bicho-papão preferido. Em vez de ver as coisas como elas são, os egípcios, de seus líderes para baixo, sempre preferiram o jogo da culpa - e com boa razão. Culpar algum insidioso vilão clandestino por qualquer coisa invariavelmente funciona num país onde o ouvir dizer passa por verdade e a paranoia por conhecimento.

Às vezes, essas mãos ocultas são chamadas Langley, ou o Ocidente, ou, na falta do resto, é claro, o Mossad. Às vezes, "mãos ocultas" significa qualquer número de conspirações locais ou estrangeiras conduzidas por burocratas corruptos ou insatisfeitos que estão eternamente ávidos para manchar e desacreditar a confiança pública.

Confiança. O problema do Egito é que não há confiança pública. Não há confiança, ponto. O rumor falso, que é o ópio das massas egípcias e o pão com manteiga do discurso político no mundo árabe, sobrepõe-se a transparência, razão e disposição de tolerar uma opinião diferente, para não falar de uma religião diferente ou o espírito da liberdade de expressão.

"Mãos ocultas" significa Satã. E com Satã não se usa julgamento - usa-se astúcia e paranoia. A astúcia, afinal, é a dieta do pobre, uma maneira de remendar uma narrativa suficientemente crível que seja ao mesmo tempo fácil de digerir, de jurar por, e de passar adiante. Os bichos-papões mantêm as pessoas focadas. E nada no Oriente Médio pode mantê-las tão focadas (ou não focadas) como o arquivilão de todos eles: Israel.

Diga "Israel" e terá espicaçado todos. Diga "Israel" e terá um movimento, uma causa, um propósito. Diga "Israel" e todo o Islã se agrupa. Irã, Hamas, Hezbollah e agora, Turquia.

O que há de bom no episódio de Maspero é que, no espírito estimulante e invulgar dos eventos da última primavera na Praça Tahrir, muçulmanos uniram-se a manifestantes coptas que estavam ansiosos para exercer o direito de reconstruir igrejas - um direito que sempre foi concedido a contragosto aos coptas do Egito.

Mas o terrível no episódio é a incapacidade do governo de assumir a responsabilidade pelo massacre dos coptas. Da mesma forma, em setembro, ele não interveio em tempo oportuno quando uma grande turba atacou a embaixada israelense no Cairo, derrubou seus muros e quase massacrou as pessoas que estavam no seu interior.

O Exército amigo que os coptas abraçaram durante a primavera árabe virou suas armas para aqueles que o abraçaram. Seu amigão hoje, seu matador amanhã. Não há regras e não há confiança. O pobre nas ruas, se quiser pensar por conta própria - o que é uma ordem difícil num país que não tem tradição de liberdade de expressão - terá de usar lentes deformadas para ver através da agitação e propaganda avassaladora ou se render ao fanatismo cego.

Os coptas representam aproximadamente 10% da população do Egito e são descendentes diretos dos antigos egípcios. Mas, sentido-se ameaçados enquanto todos os demais no Egito e no Ocidente se ocupavam celebrando a queda de Mubarak durante a muito alardeada Primavera Árabe, 93 mil coptas já fugiram do Egito desde março. À luz dos acontecimentos em Maspero, acredita-se que outros 150 mil coptas poderão deixar sua pátria ancestral até o fim do ano.

Quando Mubarak estava no poder, os coptas eram com frequência as vítimas de ataques violentos e discriminação oficial. Agora que Mubarak se foi, os coptas temem que uma maioria muçulmana eleita possa se mostrar bem menos tolerante que uma ditadura militar. O que não ocorre à maioria dos egípcios é que os coptas representam uma comunidade de negócios importante no Egito e sua fuga poderá prejudicar ainda mais uma economia onerada por um déficit crescente.

Dura lição. Mas nada disso é novo para o Egito. Os egípcios ainda não aprenderam a lição muito dura da saída pós-1956 de seus quase 100 mil judeus que, na época, constituíam uma das comunidades judaicas mais ricas na região do Mediterrâneo.

A economia egípcia nunca se recuperou dessa perda. Embora culpar o sionismo e a criação de Israel ou se voltar para uma liderança islâmica possa afastar as mentes de muitas pessoas da verdadeira debacle financeira que o Egito enfrenta e ajudar a mitigar sentimentos de impotência, a dura lição ainda não foi aprendida.

A Primavera Árabe foi um exemplo luminoso de euforia democrática num país que não tinha uma história de democracia nem de euforia. O que ocorreu com os coptas neste outono egípcio forma uma nuvem escura, que o governo interino, sejam quais forem suas reais convicções, faria bem em dissipar.

O Egito não deveria perder os seus coptas. Pois se for isso que o outono trouxer, então, parafraseando Shelley, o inverno poderá estar próximo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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