Mariana Hallal/ESTADÃO
Mariana Hallal/ESTADÃO

Depois de três confinamentos severos, moradores do Reino Unido criam novas formas de convívio social

As escolas e os serviços não essenciais estão fechados em todo o país desde 5 de janeiro e a circulação de pessoas está limitada, assim como os encontros

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2021 | 04h00

OXFORD, REINO UNIDO - Todo mês, uma caixa com lembranças da Alemanha chega à casa de Lola, de 12 anos, e de Fausto Santovito, de 17. Os brasileiros, que vivem com a mãe na Inglaterra há cerca de um ano e meio, encontraram no correio uma forma de manter a comunicação com o pai em meio às limitações impostas pela pandemia do coronavírus.

Mas não era para ser assim. Quando decidiram se mudar para a cidade inglesa de Oxford, os filhos da engenheira civil Carla Pacífico, de 47 anos, pretendiam visitar o pai na Alemanha ao menos uma vez a cada dois meses. Com a restrição de viagens gerada pela pandemia e três lockdowns depois, eles estão há um ano sem vê-lo.

“Percebemos que eles precisavam criar uma comunicação mais estreita. Deveria ser algo não só virtual, mas físico também”, diz Carla. Foi aí que surgiu a ideia da caixa. Os jovens passam semanas escolhendo objetos especiais que  falem sobre sua nova rotina para enviar ao pai. Da mesma forma, a caixa volta cheia de lembranças da vida na Alemanha.

“Se os pais não têm a habilidade de criar sonhos diferentes dentro das possibilidades que temos hoje, as crianças ficam mais frustradas e ansiosas”, acredita a engenheira civil. 

Administrar a ansiedade e frustração dos filhos é o que Carla vem fazendo desde março do ano passado, quando o governo da Inglaterra decretou o confinamento pela primeira vez. Na época, eles estavam começando a se adaptar à nova rotina em um país diferente e ansiosos para aproveitar o verão com os amigos da escola. Os passeios no parque foram substituídos por banhos de piscina no quintal e jogos com a família. 

As escolas e os serviços não essenciais estão fechados em todo o país desde 5 de janeiro e a circulação de pessoas está limitada, assim como os encontros. Neste terceiro lockdown, os ingleses podem se reunir apenas com moradores da mesma casa ou, em alguns casos específicos, com sua rede de apoio formada por uma outra família. Pessoas que moram sozinhas e adultos solteiros que vivem com filhos menores de idade, por exemplo, fazem parte da exceção e podem ter apoio externo.

No início desta nova fase de restrições, a falta dos amigos pesou para Fausto e Lola. Enquanto o mais velho questionava o porquê de não poder encontrar os colegas, a pequena se preocupava com a festa de 12 anos. “Ela me perguntava como iria comemorar o aniversário desse jeito e até quando viveremos dessa forma”, diz a mãe.

“No segundo lockdown (que aconteceu no mês de novembro) eles puderam ir à escola e encontrar os colegas de classe”, explica Carla sobre a pergunta dos filhos. Desta vez, as restrições estão mais severas.

Um pouco mais acostumados à rotina caseira e às aulas remotas, os três só saem de casa quando é estritamente necessário, como para fazer compras. Carla ainda é voluntária e entrega remédios a pessoas que são do grupo de risco e não podem ir a farmácias. O único integrante da casa que sai diariamente é o namorado de Carla, Alex, que trabalha no Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês) e como entregador de aplicativo.

Rotina

Enquanto a quarentena é uma novidade e um grande desafio para alguns, outros já tinham o isolamento social como forma de proteger a vida há muito tempo. É o caso da britânica Helen Roper, de 40 anos, que luta contra a fibrose cística. A doença genética crônica prejudica, principalmente, os pulmões.

“Minha vida não está tão diferente com o lockdown. Eu já passava bastante tempo dentro de casa”, conta. Além de ter boa parte da rotina comprometida com o tratamento da doença, ela precisa ter muito cuidado ao encontrar outras pessoas. “Se eu pegar um resfriado posso ficar internada por semanas e uma gripe tem potencial para me matar”, diz. 

Por isso, antes mesmo de o coronavírus confinar boa parte do mundo, ela já precisava calcular muito bem os prós e contras de cada passeio ou visita. “Eu tenho de comparar os riscos de ser infectada por algum vírus ou bactéria com as vantagens do convívio social”, explica.

Quando a pandemia começou a ganhar força, essas preocupações aumentaram. “No primeiro lockdown eu não saí de casa nenhuma vez”, fala. Depois disso, porém, a equipe médica que cuida de Helen recomendou que ela fizesse caminhadas diárias para manter a saúde física e mental. “Saio todos os dias para caminhar e fico sempre distante de outras pessoas. Esse é o único motivo que tenho para sair. Não vou fazer compras nem nada do tipo”, fala. 

Além disso, a britânica dá algumas dicas do que fazer para aguentar o peso do isolamento e distrair a mente. “Eu costumo desenhar e pintar. Também gosto muito de conversar com outras pessoas pelo Zoom (aplicativo de videochamadas)”. Ela também mantém um blog, o www.butyoulooksowell.com, onde compartilha o dia a dia com a doença e a espera pelo duplo transplante de pulmão que pode salvar sua vida.

Apesar de estar acostumada a passar longos períodos em casa, a pandemia mudou algumas coisas importantes na vida de Helen. O contato físico com a família, por exemplo, precisou ser reduzido. “A última vez que vi meus pais foi em setembro. Já faz um ano que não encontro meu irmão e meus sobrinhos”, diz.

Em março do ano passado, quando a pandemia começou a ganhar força no mundo todo, ela estava internada no hospital. “Eu fiquei bastante preocupada porque, obviamente, ninguém sabia o que iria acontecer. Foi um período muito estressante”, lembra. 

Agora, quando vê as pessoas menosprezando o vírus e relaxando o cuidado, ela diz que se sente irritada. “Também fico nervosa e preocupada pelo NHS (Serviço Nacional de Saúde). Eu passo bastante tempo nos hospitais e vejo o impacto que o coronavírus está causando”, diz. “As pessoas precisam pensar sobre suas ações e ser menos egoístas."

Tudo o que sabemos sobre:
Inglaterra [Europa]coronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.