Ruth Fremson/The New York Times
Ruth Fremson/The New York Times

Depois de Trump, Biden é pressionado a fazer frente à China apoiando Taiwan

Nos seus últimos dias no cargo, o presidente Trump tem procurado desautorizar a China dando apoio a Taiwan. O presidente eleito Joe Biden provavelmente seguirá caminho idêntico - sem belicosidade

Javier C. Hernández e Amy Chang Chien, The New York Times

25 de novembro de 2020 | 13h00

TAIWAN - O presidente Donald Trump vem estreitando os vínculos com Taiwan para conter a crescente influência da China. Aumentou de modo significativo as vendas de armas para o Exército de Taiwan, prometeu intensificar a cooperação econômica e, no geral, vem incrementando as relações com a ilha, mesmo nos seus últimos dias de mandato.

Seu sucessor, Joe Biden, provavelmente seguirá o mesmo caminho, mas sem a belicosidade típica de Trump.

À medida que cresce a preocupação com o comportamento cada vez mais agressivo da China no cenário global, Biden será pressionado por democratas e republicanos no sentido de fortalecer os elos com Taiwan, que Pequim considera parte do seu território.

Embora Biden tenha se manifestado pouco a respeito durante sua campanha, ele afirmou que os Estados Unidos devem ser “duros com a China” e descreveu o líder chinês Xi Jinping como um “brutamontes.” E a sua equipe de transição já manteve contatos com autoridades taiwanesas.

“Se a China continuar pressionando Taiwan, econômica e militarmente, Biden terá de mostrar que não ficará de braços cruzados deixando a China continuar a intimidar Taiwan”, disse Bonnie St. Glaser, conselheiro para assuntos ligados à Ásia no Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos com sede em Washington.

O enfoque de Biden, contudo, deverá ser menos beligerante do que o de Trump. “Não acho que Biden usará Taiwan para insultar Xi Jinping ou fazer com que ele pareça fraco”, disse Glaser. “Não existe nenhum esforço deliberado para fazer de Taiwan um ponto de atrito.”

Com menos de dois meses para terminar seu mandato, Trump vem trabalhando para deixar um legado de medidas que levam a um rompimento de relações entre Estados Unidos e China, incluindo uma série de ações adotadas no último minuto e concentradas em Taiwan.

Na semana passada, o governo americano manteve conversas com autoridades taiwanesas em Washington, atraindo críticas de Pequim. No próximo mês a Casa Branca deve enviar o líder da Agência de Proteção Ambiental para Taipei, a mais recente de uma série de visitas de alto nível de autoridades americanas que vêm exasperando o governo chinês.

Trump conquistou seguidores leais em Taiwan diante das críticas feitas ao Partido Comunista Chinês pelo seu governo em assuntos como comércio, a pandemia do coronavírus e a repressão contra dissidentes em Hong Kong.

Foi elogiado por sua aprovação rápida de uma venda de armas para o Exército de Taiwan, incluindo uma remessa de valor equivalente a US$ 4 bilhões no mês passado. E também é muito aclamado por sua decisão, ainda como presidente eleito em 2016, de telefonar para o presidente Tsai Ing-wen, rompendo com décadas de prática democrática.

“As ações de Trump têm sido muito sólidas”, disse Tsai Yi-yu, parlamentar taiwanês. Tsai apoia enfaticamente o presidente Trump, chegando até a usar uma máscara com a inscrição “Keep America Great” em reuniões com líderes taiwaneses.

“Manter as políticas de Trump para Taiwan será o melhor para a ilha”, disse Tsai Ing-wen, citando o apoio de Trump às vendas de armas.

Em Taiwan, a ascensão de Biden foi recebida com certo nervosismo, especialmente dentro do Partido Democrático Progressista, no governo, que é um crítico da China.

Muitos políticos e ativistas em Taiwan estão cada vez mais inquietos com o autoritarismo de Xi Jinping e têm apelado a líderes mundiais para se oporem de modo contundente aos esforços de Pequim para manter seu controle sobre a ilha, e tratarem Taiwan como um semelhante.

Biden é visto em Taiwan como um político mais avesso a riscos. Ele é mais conhecido pela sua atuação como vice-presidente de Barack Obama, que foi criticado em Taiwan por não ter feito o bastante para se impor a Xi.

Como senador, Biden ajudou a inserir a China em grupos internacionais, como a OMC - Organização Mundial do Comércio - o que deu ao país a vantagem competitiva que desejava para expandir sua economia e ter influência no sistema global.

Biden contesta a afirmação de que cedeu à pressão de Pequim. Como prova do seu compromisso para com Taiwan, seus assessores citaram seu respaldo, quando senador, ao Taiwan Relations Act, de 1979, que obriga Washington a fornecer armas para o país.

Mais recentemente, manifestou seu apoio a Taiwan em outros assuntos, e Antony Blinken, escolhido por ele para secretário de Estado, por exemplo, conversou este mês com o embaixador de Taiwan nas Nações Unidas.

“Ele continuará dando apoio a uma solução pacífica de questões ligadas às relações entre China e Taiwan de acordo com os desejos e os melhores interesses do povo de Taiwan”, afirmou um membro da equipe de transição. “Ele afirma que o apoio americano a Taiwan tem de continuar forte, baseado em princípios e bipartidário.”

Em Taiwan, alguns políticos, incluindo membros do partido da oposição, o Kuomintang, acham que um enfoque mais contido de Biden ajudaria a amainar as tensões e evitar um conflito militar entre Estados Unidos e China.

“Ele não é um político imprudente e nem uma pessoa que deseja realizar algo notável num período curto de tempo”, afirmou Cheng Li-wun, parlamentar do Kuomintang.

Apesar dos apelos de Biden no sentido de uma maior cooperação, os líderes chineses se mostram cautelosos com sua liderança. E temem que ele tente unir os aliados dos Estados Unidos na Europa e na Ásia para frustrar o programa global de Pequim, afirmam analistas na China, e que continuará buscando elos mais fortes com Taiwan.

“As políticas básicas com relação a Taiwan, mesmo durante o mandato de Biden, não terão mudanças radicais”, disse Xin Qiang, estudioso das relações Estados Unidos-China e Taiwan na Fudan University em Xangai. “Quanto à estratégia e às táticas, a China se preocupa com Biden como com Trump”.

Em seus últimos dias de governo, Trump e seus assessores parecem estar desejando testar os limites da China no tocante a Taiwan.

O secretário de Estado Mike Pompeo intensificou suas críticas a Pequim, dizendo numa recente entrevista que Taiwan não faz parte da China. Suas observações provocaram uma resposta furiosa das autoridades chineses que afirmaram que Taiwan é uma parte inalienável da China, censuraram Pompeo e prometeram retaliações.

O assessor de segurança nacional de Trump, Robert O’Brien, está em visita à região para tranquilizar os aliados dos EUA, depois de Pequim ter assinado, neste mês, um acordo comercial com 14 países da região, considerado um freio ao poder americano.

Na segunda-feira, em Manila, O’Brien afirmou que os Estados Unidos continuarão a dar seu apoio a Taiwan e não cederão à China sua posição de poder na região do Pacífico.

“Vamos lutar por uma região indo-pacífica livre e aberta com todos os nossos parceiros”, disse O’Brien numa videoconferência com jornalistas.

Quando assumir o governo em janeiro, Biden deve se defrontar com uma resistência crescente e decisões políticas difíceis, incluindo questões envolvendo vendas de armas e investimentos econômicos.

Taiwan há muito tempo pressiona os Estados Unidos para assinarem um tratado comercial bilateral, a que a China se opõe. Em agosto, Tsai Ing-wen anulou uma antiga proibição de importação de carne de vaca e de porco dos Estados Unidos, decisão vista como uma tentativa para abrir o caminho no sentido de iniciar conversações comerciais oficiais com vistas a esse tratado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO  

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