AP Photo/Manu Fernandez
AP Photo/Manu Fernandez

Turistas retomam cenário de atentado

Entre luto e homenagens, visitantes lotam as Ramblas em desafio aos objetivos do terrorismo

Andrei Netto, Enviado Especial / Barcelona, O Estado de S.Paulo

18 Agosto 2017 | 11h13
Atualizado 18 Agosto 2017 | 21h59

Barcelona viveu um estranho dia seguinte ao atentado das Ramblas, no coração da Catalunha. Menos de 24 horas após o ataque terrorista, a população local e turistas se dividiram entre o choro, o choque, as homenagens às vítimas e um rápido retorno à vida normal. A reabertura progressiva da região central ocorreu por volta de 2 horas da madrugada desta sexta-feira, 18. À tarde, uma multidão tomava as ruas, como em um dia comum em uma metrópole turística.

O dia em Barcelona, no entanto, começou sob tensão. Ao longo da madrugada, a polícia escoltou, em grupos de seis pessoas, os moradores e turistas hospedados na região do ataque até as residências e hotéis. Pela manhã, com as ruas ainda vazias, a presença ostensiva das forças de segurança deixou claro o temor das autoridades públicas de que uma nova tragédia pudesse ocorrer. Viaturas em entradas de grandes vias fecharam o espaço ao trânsito de automóveis, por prevenção.

Aos poucos, os barceloneses e estrangeiros começaram a sair às ruas, ainda com incredulidade. Esse foi o sentimento do casal de brasileiros James, empresário, e Lilian Castro, psicóloga, que passam férias em Barcelona hospedados em um hotel em frente ao ponto inicial da trajetória do terrorista no ataque. “Nós moramos no Brasil e temos muito medo, mas lá tentamos nos proteger, não saindo com joias, com dinheiro. Aqui é muito pior, porque você não tem ideia”, disse Lilian. 

Pouco antes do meio-dia, o fluxo de pessoas nas ruas começou a crescer e aos poucos uma multidão se reuniu na Praça da Catalunha, centro da cidade, ao lado do local do atentado. Ali, o rei, Felipe VI, o primeiro-ministro da Espanha, Mariano Rajoy, e o governador da Catalunha, Carles Puigdemont, pediram à população que se una contra o terrorismo, a despeito de suas diferenças políticas – os catalães organizam um referendo de independência em outubro, contra a vontade do governo central.

Às 12 horas, a multidão se calou em um minuto de silêncio. Nas ruas, ônibus e automóveis pararam. Ao final, uma salva de aplausos durou dois minutos e só foi interrompida por gritos de “Não temos medo!”. “É importante sair às ruas para manifestar solidariedade e para botar para fora um pouco da raiva que estamos sentindo”, disse o aposentado Manolo Rodríguez, revelando o receio que permeia os pensamentos de muitos espanhóis. “Não sei nem como estamos todos aqui, reunidos, porque agora mesmo um novo atentado poderia acontecer. O que estamos fazendo aqui é uma loucura, porque o que esse homem fez é fácil. Agora alguém poderia fazer igual e seria um massacre.” 

Lhuis Marcelo, estudante de 19 anos, também foi à praça prestar homenagem às vítimas. “Senti a necessidade de ver. As Ramblas são um local que todos visitamos, por isso o que ocorreu mexe com todos nós”, conta.

Da praça, uma parte das pessoas rumou para as Ramblas onde ocorreu o atentado, iniciando uma caminhada conjunta ao longo dos 550 metros nos quais a tragédia se produziu. Aos poucos, no local em que cada vítima morreu, entre elas crianças, velas, flores, desenhos e mensagens de homenagens foram sendo depositados. 

Em clima de recolhimento, as histórias de emoção se sucederam. Em um dos pontos do trajeto, um homem postou-se em um trecho de rua aberto aos automóveis, em frente ao local em que seu filho morreu. Chorando de forma inconsolável, ele foi sendo abraçado por desconhecidos, em um gesto silencioso que se repetiu dezenas de vezes. Mais abaixo, no ponto em que o veículo foi parado, sobre um mosaico de Miró, uma homenagem maior a todas as vítimas foi pouco a pouco sendo organizada. 

No meio da tarde, um protesto de membros da extrema direita espanhola reuniu entre duas e três dezenas de manifestantes contrários à imigração e à presença de muçulmanos no país. Revoltados, outros cidadãos intervieram e houve um princípio de briga, interrompida pela polícia. 

Em outro ponto, um homem partidário da independência da Catalunha, vestindo uma camisa da campanha pelo “sim” à separação de Madri, indignou-se com a presença de outro homem que portava, em silêncio, a bandeira amarela e vermelha da Espanha. “Tenha respeito pelos mortos!”, repetiu, aos gritos, sendo ele próprio o único a desrespeitar o luto.

 

 

 

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