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Depois do entusiasmo, a tragédia

Depoimento: Segundo Ruy Mesquita, no início Fidel era um liberal que lutava pela verdadeira democratização de seu país

O Estadao de S.Paulo

20 de fevereiro de 2008 | 00h00

O jornalista Ruy Mesquita, diretor de Opinião do Grupo Estado, testemunhou de perto a revolução cubana. Ele deu o seguinte depoimento ontem: "Acompanhei a saga revolucionária de Fidel Castro com grande entusiasmo, pelo menos até o momento em que ele se proclamou um aliado do comunismo internacional. Quando Castro surgiu pela primeira vez no noticiário internacional, foi por sua participação no famoso Bogotazo, um movimento de rua em Bogotá, capital da Colômbia, depois do assassinato de Jorge Eliécer Gaitan, um grande líder liberal colombiano. Isso foi em 1948 e Fidel Castro tinha, portanto, 22 anos. E, desde aí, acompanhei a sua carreira de líder revolucionário.O segundo episódio importante da sua vida política foi o assalto ao Quartel Moncada em 1953, quando ele foi preso. Foi sua primeira tentativa de derrubar a ditadura do sargento Fulgencio Batista. Ele foi preso e condenado. Produziu o primeiro documento histórico que depois ele esconderia. É importante citar esse documento. Formado em Direito, produziu sua própria defesa num documento intitulado A História me absolverá. Eu falo desse documento para dirimir as dúvidas que sempre existiram sobre se Fidel Castro já era, no início de sua vida política, um marxista, comunista militante. Em minha opinião, ele não era. Seu irmão, Raúl Castro, sim, era desde o começo. Mas ele, como esse documento mostra, era um liberal que lutava pela verdadeira democratização do seu país . Não se nota nesse extenso documento nenhum traço de marxismo, de comunismo ou de esquerdismo. Sua defesa parece um discurso de um estudante da Faculdade de Direito de São Paulo contra a ditadura Vargas. Queria o voto livre, queria a liberdade de imprensa. O que o levou a assumir a posição que assumiu foi a convicção de que ou ele empenhava a sua alma ao Mefistófeles soviético ou não duraria muito no poder porque de alguma maneira a ação norte-americana contra seu governo faria com que não durasse muito. Como primeiro peão do jogo soviético na América Latina, como aliado franco e declarado do regime soviético, ele sabia que não poderia ser tocado pelos americanos, sob pena de uma reação que poderia culminar num choque direto entre Estados Unidos e União Soviética. Eu estive em Cuba em 1956, portanto três anos antes da chegada dele ao poder. Era uma reunião da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP). Estivemos lá eu, meu irmão Julio e Nascimento Brito, do Jornal do Brasil, como representantes da imprensa brasileira. Assistimos ao primeiro ato histórico dos revolucionários fidelistas que promoveram, aproveitando a presença de 300 jornalistas latino-americanos em Cuba naquela ocasião, outubro de 56, aquele ano terrível que foi o ano da revolução húngara contra o comunismo, da invasão do Canal de Suez pelos anglo-franceses, tudo mais ou menos naquela época, em outubro. O mundo fervia em plena Guerra Fria.Os fidelistas invadiram, de noite, o cassino onde estava o chefe do serviço secreto do exército de Batista e o fuzilaram na mesa de jogo. Cometeram o erro, trágico para eles, de saírem de lá e se refugiarem na embaixada do Haiti. Evidentemente, Batista não respeitou. Entrou na embaixada no dia seguinte, tirou-os de lá, alinhou-os na calçada e fuzilou-os todos, o que provocou uma indignação brutal entre os jornalistas democráticos, entre os quais Julio Neto, Nascimento Brito e eu. Nós nos recusamos, em sinal de protesto, a participar do jantar que habitualmente ofereciam aos jornalistas os chefes de governo dos países em que se realizava a reunião da SIP. Evidentemente, a minha simpatia pelo movimento castrista que oficialmente pretendia apenas estabelecer um regime plenamente democrático em Cuba foi total. Depois disso, quando houve o desembarque em Sierra Maestra, em fins de 1957, eu estava dirigindo a seção internacional do Estado e dei apoio total. Havia um comentário diário que se publicava no Estado daquela época sobre os acontecimentos internacionais, um comentário chamado De um Dia para Outro, criado por Giannino Carta. Depois que ele deixou de dirigir a seção internacional, fui eu quem assumiu o lugar e era eu quem escrevia aquela coluna. Quase todo dia, durante os dois anos que durou a saga de Sierra Maestra, havia comentários sobre a Revolução.Isso fez com que, quando ela foi vitoriosa em 1º de janeiro de 1959, seis meses depois da primeira comemoração da data da Revolução - que os cubanos comemoram em 26 de julho, a data do ataque ao Quartel Moncada -, eu fosse convidado, juntamente com o Armando Jimenez, colega que trabalhava na ocasião no Diário de S. Paulo, que era comunista, para assistir à primeira festa do 26 de julho depois da subida ao poder de Castro. Fomos os dois únicos jornalistas brasileiros convidados junto com outros muitos jornalistas do mundo inteiro.Essa festa teve um significado especial, porque, para tentar afastar, logo no primeiro momento, a suspeita de que era comunista, Castro entregou, logo que assumiu, o cargo de primeiro-ministro a um conhecido juiz cubano, Manuel Urrutia, que era um liberal democrata. Naquela encenação da manifestação do 26 de julho na Plaza de la Revolución, Fidel Castro declarou que ia renunciar ao governo, porque estava em desacordo com o primeiro-ministro. Claro que a multidão não permitiu e exigiu a renúncia de Urrutia.Fui apresentado à multidão na Praça da Revolução como redator do jornal que mais tinha defendido a Revolução de Sierra Maestra em todo o mundo. A sede do Movimento de 26 de Julho tinha na parede o fac-símile da primeira página do Estado de 1º de janeiro anunciando a vitória da revolução cubana. O regime castrista, que já dura 49 anos, é a maior tragédia política da história moderna como está sendo demonstrado hoje, pois, 49 anos depois, a economia cubana está pior do que no momento em que Castro assumiu o governo. É o que se pode chamar de hibernação econômica de um país que durou quase 50 anos. Tenho a impressão de que Fidel Castro, quando afastado do poder pela doença, fez um exame de consciência e acabou se convencendo de que deveria dar o passo inicial de um processo de transição do regime cubano para um regime menos ditatorial, embora ele permaneça comandado pelo seu irmão Raúl Castro, que sofreu uma evolução mais positiva do que ele. No início, ele era um radical comunista e até sanguinário, mas acabou convencido de que a economia cubana tinha que se abrir, se modernizar, para que a situação do povo cubano possa melhorar materialmente. Apesar das vitórias cantadas por Castro nos campos da Saúde e da Educação, é uma tragédia a situação do povo cubano. Isso ficou demonstrado por todas as tentativas, desde o primeiro dia da comunização do regime castrista, de fugas em massa de cubanos para os Estados Unidos. Aliás, a explicação da hibernação da economia cubana é fácil: é que nos primeiros momentos da Revolução, quando Castro se declarou francamente comunista, a economia cubana emigrou para a Flórida. E emigrou em massa. Foram 600 mil cubanos que saíram naquela época, 10% da população de Cuba, que era de 6 milhões de pessoas. Emigraram para a Flórida onde deram uma demonstração fantástica de sua competência e da sua eficiência como empresários, criando uma economia paralela à americana na Flórida, que lhes deu até poder político suficiente para conquistar a prefeitura de Miami. Esse é o grande trunfo com que pode contar a Cuba pós-castrista, que certamente terá o apoio total e absoluto dessa comunidade cubana que passou esse tempo todo nos Estados Unidos. Eu tenho uma esperança muito grande de que o processo de transição se inicie já e não apenas depois da morte de Raúl Castro. Ele parece convencido da necessidade de modernizar a economia cubana que hoje se limita praticamente à cana-de-açúcar e ao turismo, para que o povo cubano tenha um futuro pela frente."

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