Depois dos ataques, surgem dúvidas sobre falhas de inteligência

O sangrento desfecho, na sexta-feira, da série de ataques terroristas ocorrida na França significa que as atenções se voltarão para a grande questão com que se depara o governo francês. Como é possível que vários jihadistas tenham conseguido burlar a vigilância e realizar um ousado ataque apesar de serem bem conhecidos pela polícia e pelos serviços de inteligência do país? O massacre da quarta-feira no jornal Charlie Hebdo representou uma falha enorme para as forças de segurança e para a inteligência francesa, particularmente depois da confirmação de que era sabido que os irmãos Said e Chérif Kouachi tinham vínculos com a Al-Qaeda no Iêmen. 

Steven Erlanger e Jim Yardley / NYT*, O Estado de S. Paulo

12 de janeiro de 2015 | 03h00

Na sexta-feira, enquanto a polícia encurralava os irmãos Kouachi no interior de uma fábrica nos subúrbios da capital, outro militante, Amedy Coulibaly – que estava ligado aos irmãos – invadiu um mercado judaico em Paris, ameaçando matar reféns se a polícia capturasse os Kouachi. “Há uma evidente falha”, disse o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, à televisão francesa na sexta-feira. “Quando 17 pessoas morrem, significa que houve deficiências”. 

Um funcionário americano, falando sobre o fato de o complô não ter sido identificado, disse que as agências de inteligência e a polícia francesa acompanharam as atividades de um ou de ambos os irmãos depois que Said regressou do Iêmen, mas diminuíram seu monitoramento ou o abandonaram totalmente, a fim de se concentrar em ameaças supostamente mais graves.

Um dos motivos das falhas pode ser o aumento contínuo do número de possíveis jihadistas dentro da própria França. Recentemente, entre mil e 2 mil cidadãos franceses foram para a Síria ou para o Iraque, e cerca de 200 regressaram, tornando sua vigilância uma tarefa enorme. As indagações com que se defrontam os serviços franceses de inteligência começam com o ataque ao Charlie Hebdo. As autoridades sabiam que atingir o semanário e seu editor era um objetivo declarado da Al-Qaeda na Península Arábica, conforme expresso em uma revista publicada pela rede terrorista. Funcionários da inteligência também identificaram os irmãos Kouachi como anteriormente envolvidos em atividades relativas à jihad. 

Há muito ainda a esclarecer sobre os três suspeitos, mas os franceses aparentemente sabiam, ou deveriam saber, por suas investigações ou graças à estreita colaboração da inteligência dos EUA, que Said viajara para o Iêmen em 2011. Para as autoridades francesas, as questões básicas são por que os três indivíduos não foram monitorados de maneira mais agressiva e por que a redação do Charlie Hebdo não estava mais protegida. 

O presidente François Hollande foi à televisão na sexta-feira – antes do desenlace dos dois confrontos – para tentar tranquilizar a nação, e visitou o Ministério do Interior para supervisionar a ação da polícia. Os ataques provavelmente agravaram os problemas políticos de Hollande, já considerado fraco e indeciso. Jean-Louis Bruguière, ex-juiz das operações de repressão ao terrorismo, que conheceu Chérif Kouachi quando ele foi preso em 2005, e ex-assessor presidencial sobre terrorismo, disse que não há condições de monitorar todas as pessoas de algum interesse. “Não se pode manter um policial seguindo cada uma delas”, afirmou.

*SÃO JORNALISTAS

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