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Depuração pela lata de lixo

O que ocorre na Ucrânia? O que se passa em Kiev, cidade que manteve o mundo em suspense há menos de um ano, quando os democratas ocuparam heroicamente a Praça Maidan e derrubaram o presidente Viktor Yanukovich, homem de Moscou, que fugiu para a Rússia?

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2014 | 02h01

Hoje, se ainda se evoca a Ucrânia é para falar das manobras do líder russo, Vladimir Putin, que já conseguiu separar a Crimeia e se empenha em fragilizar as regiões de língua russa (na parte leste) da Ucrânia por meio de artimanhas diplomáticas e o ruído de tanques. Mas em Kiev, silêncio - névoa e silêncio.

No entanto, Kiev ainda é uma cidade vibrante que não aceita que a longa luta da Praça Maidan para expulsar Yanukovich e o domínio do Kremlin sobre a Ucrânia se dissolva como uma nuvem escura, ou melhor, como a Primavera Árabe do Cairo ou de Trípoli.

Diversão. Testemunha desta vitalidade da população de Kiev: uma das diversões mais populares é o da lata do lixo, chamado de "O Desafio da Lata de Lixo". Quando é detectado um eleito ou funcionário suspeito, próximo do antigo poder, alguns "valentões" se acercam dele e o jogam numa lata de lixo.

Recentemente, o deputado Viktor Pilipichine, que foi eleito para o Parlamento pelo partido de Yanukovich graças a subornos gigantescos, foi abordado em Kiev por alguns jovens enérgicos que o atiram num balde de tinta.

Em Odessa, Nestor Choutritch, estreito aliado do antigo presidente, só não foi jogado na lata de lixo graças aos inúmeros guarda-costas em torno dele.

Inútil dizer que os jovens que se encarregam desse trabalho pertencem a grupos de direita - e uma direita extrema, do Partido Pravy Sektor (Setor Direita). O risco é o de estas justiças sumárias engendrarem o caos.

Alerta. O governo do presidente ucraniano, Petro Poroshenko, não aprecia essa conduta. Mas não ousa condená-la e muito menos proibi-la. Ele se contentou em emitir um alerta: "mais um ou dois Chroutritchs espancados e alguns Pilipichines pintados e a Europa vai dar as costas à nossa vitoriosa revolução, e em seguida os Estados Unidos, é o que receio", afirmou o ministro do Interior Arsen Ayako.

Por outro lado, as autoridades na capital ucraniana estão conscientes de que não podem isentar de toda a culpa responsáveis nacionais ou regionais, além de funcionários, que colaboraram com a desprezível equipe de Yanukovich.

E foi criado no trimestre passado o "Comitê de Depuração" (ou de expurgo) encarregado exatamente de perseguir antigos membros do reinado de Yanukovich. E energia é o que não falta a este comitê. Já no trimestre passado conseguiu que fosse sancionada uma lei de "depuração" abrangendo o Poder Judiciário, cujo conteúdo era muito simples: todos os juízes da Ucrânia foram destituídos.

E este é apenas o início. A "depuração" está em pleno desenvolvimento. A lei votada pelo Parlamento é tão abrangente que deverá atingir um milhão de pessoas, no geral em postos importantes na sociedade ucraniana, o que poderá provocar uma paralisia do país, sem falar em convulsões sociais ou atos de vingança em todas as direções.

Eis por que o pragmático presidente Petro Poroshenko hesitou antes de autorizar a entrada em vigor da nova lei. No entanto, acabou assinando o decreto há uma semana. Mas, no geral, todos acham que o governo pela lata de lixo ainda tem belos dias à frente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris 

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