Deputada holandesa abandona política por problema com imigração

A deputada Ayaan Hirsi Ali, nascida na Somália e naturalizada holandesa, anunciou nesta terça-feira que renunciará a seu cargo e abandonará a política e a Holanda depois de o Ministério da Imigração ter concluído que concedeu erroneamente a cidadania à jovem política. Ayaan, de 36 anos, disse que tomou a decisão na noite de segunda-feira, quando a ministra de Imigração Rita Verdonk disse a ela que sua cidadania holandesa seria revogada. "Portanto, estou me preparando para deixar a Holanda", anunciou a deputada a jornalistas em Haia. A deputada tornou-se mundialmente conhecida depois do assassinato do cineasta Theo van Gogh, em novembro de 2004. Ela escreveu o roteiro do filme Submissão, dirigido por Van Gogh e que criticava o tratamento às mulheres sob o fundamentalismo islâmico. O filme descontentou muitos muçulmanos e o assassino de Van Gogh deixou uma nota de ameaça a Ayaan. Desde então, ela estava sob proteção especial das autoridades holandesas. Em 1992, quando chegou à Holanda, Ayaan falsificou seu nome e a data de seu nascimento ao pedir asilo. Ela alegou temer represálias de sua família por ter fugido de um casamento arranjado na Somália. A política recebeu passaporte holandês em 1997 e admitiu a falsificação do nome e da data de nascimento em 2002, quando candidatou-se ao Parlamento holandês. Não houve nenhum problema na época. Na semana passada, porém, quando um programa de televisão exibiu uma reportagem sobre o assunto, a ministra de Imigração aparentemente concluiu que a naturalização de Ayaan foi concedida irregularmente. O vice-primeiro-ministro holandês, Gerrit Zalm, que liderava o partido da deputada em 2002, disse ter ficado "maravilhado com a velocidade" com que a ministra tomou sua decisão. "Se ela (Ayaan) voltar a requisitar cidadania, tenho certeza de que o pedido será analisado com a mesma urgência", ironizou Zalm. Pessoa valiosaSimpatizantes da deputada reagiram consternados. A comissária de competição da União Européia (UE), Neelie Kroes, disse ao jornal holandês Algemeen Dagblad que sentia-se "envergonhada pelo fato de a Holanda ter desperdiçado uma pessoa tão valiosa como Hirsi Ali". O professor de ciências políticas Galen Irwin, que orientou Ayaan quando ela estudou na Universidade de Leiden, qualificou como "estranha" a repentina decisão de Verdonk. "Não havia nenhuma novidade sobre a mentira contada por Ayaan para obter asilo. O que me perturba é o fato de ela mesma ter comunicado isso ao partido em 2002" e ninguém ter feito nada na época, declarou Irwin. O parlamento holandês realizará um debate de emergência sobre a demissão da deputada na terça-feira e a ministra de Imigração deve defender sua decisão.Ayaan disse nesta terça-feira ter sido orientada por seus advogados a não falar mais nada a respeito da questão de naturalização. Ela se negou a comentar o que fará em seguida, ou sobre os comentários de que se juntaria ao Instituto American Enterprise nos Estados Unidos. Um porta-voz do instituto se recusou a comentar o assunto. Ela afirmou apenas ter ficado com nenhuma escolha a não ser renunciar enquanto o assunto é resolvido.A deputada holandesa afirmou que continuará a dar voz às críticas contra o fundamentalismo islâmico e acrescentou que pretende fazer uma seqüência do filme Submissão."Ao invés de lutar pelas causas em que acredito estaria entrando em batalhas legais. É melhor, mais apropriado, mais elegante dar um tempo do que impor meus problemas pessoais ao Parlamento e ao público", afirmou.

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