Deputados egípcios afrontam generais e Judiciário com sessão no Congresso

Em desafio aos militares e ao Judiciário, deputados egípcios voltaram ontem ao Parlamento e realizaram uma "sessão" de alguns minutos. Embora a Justiça tenha vetado a restituição do Legislativo, os congressistas puderam entrar no prédio no centro do Cairo, que estava sob forte esquema de segurança.

CAIRO, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2012 | 03h08

Horas depois do encontro dos deputados, a Suprema Corte Constitucional voltou a afirmar que o Parlamento está dissolvido. Antes, em menos de cinco minutos, os congressistas concordaram em ir em frente na luta pelo retorno de seus poderes.

Uma moção para recorrer a um novo tribunal foi proposta pelo líder da Irmandade Muçulmana no Parlamento, Saad el-Katatni, e votada aos berros, sem nenhum registro formal.

A reunião de ontem foi o quarto lance de uma disputa que vem dominando a política egípcia nas últimas semanas. No dia 15, véspera do segundo turno das eleições presidenciais, o Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA) - que governou o Egito após a queda de Hosni Mubarak - dissolveu o Congresso, dominado por religiosos. Mas o vencedor das eleições, Mohamed Morsi, da Irmandade, emitiu no domingo um decreto restituindo o Parlamento e devolvendo o poder aos deputados.

Na segunda-feira, a Justiça - alinhada à junta militar - deu o troco e rejeitou a ordem de Morsi, enquanto o CSFA exortava "todas as instituições a respeitar a Constituição". Ontem, porém, os parlamentares ignoraram a determinação dos juízes e voltaram, em festa, ao Congresso.

O resultado da troca de golpes é que a política egípcia está cada vez mais polarizada. De um lado, militares acusam a antiga oposição a Mubarak de violar a Constituição. De outro, grupos que derrubaram Mubarak acusam remanescentes da ditadura de ignorarem a vontade popular.

"O decreto do presidente Morsi (que restitui o Parlamento) não está em conflito com as determinações da Suprema Corte. Na sessão de hoje (ontem), vamos discutir como implementar o decreto", afirmou Adel Rashed, integrante do partido da Irmandade Muçulmana, pouco antes de entrar no prédio do Congresso, no centro do Cairo.

Perto dali, na Praça Tahrir, milhares se reuniram para demonstrar apoio ao presidente. De longe, forças de segurança apenas observaram o protesto.

Apelo. Ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e um dos primeiros líderes do movimento que culminou nos protestos de janeiro de 2011, Mohamed ElBaradei pediu ontem uma reunião entre os três principais poderes do Egito: o presidente Morsi, o chefe da junta militar, marechal Mohamed Hussein Tantawi, e representantes dos deputados.

Baradei é uma figura popular entre os grupos seculares que iniciaram os protestos contra Mubarak. O diplomata, porém, recuou-se a apresentar sua candidatura à presidência, dizendo discordar da primazia dos militares sobre o processo eleitoral.

Os EUA - principal aliado do Egito - começaram a pressionar mais explicitamente os lados no Cairo a moderar sua posição. "Exortamos fortemente todas as partes ao diálogo e a um esforço conjunto para tentar lidar com problemas que são compreensíveis, mas devem ser solucionados. Caso contrário, eles podem produzir dificuldades que comprometeriam a transição que está em curso", disse a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton. / NYT e REUTERS

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