Facundo Arrizabalaga|EFE
Facundo Arrizabalaga|EFE

Deputados escoceses e britânicos querem vetar saída da União Europeia

Primeira-ministra da Escócia trabalha com a possibilidade de novo referendo sobre permanência no Reino Unido enquanto parlamentares de Westminster tentam anular consulta, que não tem valor legal obrigatório e precisa de aprovação

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S. Paulo

27 Junho 2016 | 05h00

PARIS - A premiê da Escócia, Nicola Sturgeon, anunciou ontem que pretende pedir ao Parlamento do país, um dos quatro que compõem o Reino Unido, que bloqueie o processo de Brexit, o rompimento político com a União Europeia. A iniciativa faz parte de uma ofensiva de deputados em Edimburgo e em Londres contra o resultado do referendo em que 51,9% dos britânicos decidiram pela ruptura dos laços entre Londres e Bruxelas. 

A votação de quinta-feira não só dividiu a opinião pública do Reino Unido, como também expôs diferenças entre os países: Escócia e Irlanda do Norte votaram contra o rompimento, com 62% e 55,8% de apoio à União Europeia, enquanto Inglaterra e País de Gales votaram a favor, com 53,4% e 52,2% de apoio. 

A divisão levou o primeiro-ministro britânico, David Cameron, a renunciar. Além disso, reacendeu o risco de implosão do Reino Unido, com manifestações a favor da independência da Escócia e pela reunificação da Irlanda – com a saída da Irlanda do Norte do Reino Unido. 

Ontem, em entrevista à rede de TV pública BBC, Nicola Sturgeon, premiê e líder do Partido Nacional Escocês (SNP), que defende a independência do país e a permanência na UE, informou que trabalha pela realização de um novo referendo sobre se a Escócia deve ou não seguir membro do Reino Unido. Em setembro de 2014, 55,4% dos escoceses votaram em favor da união e 44,6% pela secessão. “O Reino Unido pelo qual a Escócia votou para permanecer não existe mais”, argumentou Nicola, sugerindo que o sucessor de Cameron não tente impedir uma nova consulta. 

Segundo ela, a opinião pública escocesa votou em massa pró-Europa, o que permite abrir negociações à parte com Bruxelas para garantir a permanência no bloco europeu. “Farei tudo para proteger os interesses dos escoceses”, disse, explicando o eventual novo referendo: “Não será uma decisão sobre a Escócia que parte (do Reino Unido), mas sobre a Escócia que fica (na União Europeia). Nós não queremos sair.”

Bloqueio. A líder escocesa afirmou ainda que o Parlamento de Edimburgo também pode votar contra a saída do Reino Unido da UE. Embora o legislativo escocês não tenha poder de veto, tem capacidade de bloquear politicamente o caminho do Brexit. O bloqueio seria possível porque o referendo realizado não tem valor legal obrigatório, e precisa ser aprovado pelos deputados. “Se o Parlamento escocês julgar com base no que é melhor para a Escócia, então a opção de dizer que não vamos votar algo que seja contra os interesses da Escócia deve estar na mesa”, argumentou a primeira-ministra. 

A estratégia de recusar o resultado do referendo e manter o Reino Unido no bloco também vem sendo cogitada por deputados britânicos em Westminster, o Parlamento que controla os quatro países e tem poder de veto sobre o Brexit. Ontem líderes políticos veteranos do Partido Conservador (Tory), como o ex-ministro lorde Michael Heseltine, e do Partido Trabalhista (Labour), como o ex-premiê Tony Blair, afirmaram que Westminster deve avaliar a possibilidade de vetar a ruptura entre Londres e Bruxelas. “Há uma maioria de cerca de 350 deputados na Casa dos Comuns (a Câmara de deputados britânica) a favor da relação com a Europa”, afirmou o lorde Heseltine em entrevista à rede de TV Sky News. Para o ex-ministro, a hipótese de um novo referendo precisa ser cogitada. Desde a sexta-feira, uma petição lançada no site do Parlamento pede uma nova votação e já reuniu 3,4 milhões de assinaturas – embora haja dúvidas sobre a legalidade de parte delas.

Ontem o caos político causado pelo Brexit atingiu o Partido Trabalhista, o maior da oposição. Sete assessores do líder do partido, Jeremy Corbyn, renunciaram por considerarem que ele perdeu legitimidade após a campanha em favor da permanência do Reino Unido na UE.

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