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Plano de May é rejeitado pela 3ª vez e Brexit com ruptura total já é provável

Premiê sofre nova derrota no Parlamento, mesmo após oferecer cargo em troca de aprovação; hipótese de separação radical da UE no dia 12 ganha força, embora europeus possam conceder novo prazo

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2019 | 11h45
Atualizado 30 de março de 2019 | 00h52

LONDRES - O Parlamento britânico rejeitou  nesta sexta-feira, 29,  pela terceira vez o acordo da primeira-ministra Theresa May para o Brexit, mesmo com a promessa de que ela deixaria o cargo após uma aprovação. Existem agora duas possibilidades: o Reino Unido sai da União Europeia (UE) sem nenhum acordo no dia 12, o que seria comercialmente desastroso para os dois lados, ou o bloco estende o prazo de negociação. Este adiamento obrigaria os britânicos a participar das eleições para o Parlamento Europeu, algo que May rejeita até agora. 

A votação, ocorrida no dia em que o país sairia da UE oficialmente, ilustra a profundidade da crise de três anos do Brexit. Ainda não se sabe como, quando ou mesmo se o Reino Unido se separará do bloco europeu algum dia. Diante dos riscos envolvidos numa saída sem acordo do bloco, que provocaria o colapso nos transportes e no abastecimento de remédios e alimentos no país, a UE se reunirá no dia 10 para debater uma segunda ampliação do prazo. 

O resultado aumentou a pressão pela renúncia de May, diante de sua incapacidade em reunir votos do próprio partido a favor do acordo. Especulava-se ontem que a premiê ainda pode tentar votar o acordo pela quarta vez na próxima semana e seguir no cargo. A promessa de que deixaria o governo em caso de aprovação fez com que ela tivesse uma derrota mais branda desta vez.

A União Europeia trata agora uma saída do Reino Unido sem acordo como o cenário mais provável. Líderes europeus se questionam o quão eficaz seria uma ampliação do prazo para o Reino Unido sair da UE diante da incapacidade da classe política britânica em chegar a um acordo. “As consequências dessa decisão são graves”, disse May após a votação. “Estamos chegando ao limite do processo legislativo.”

Sem conseguir o apoio do próprio partido para o acordo, ela prometeu deixar o cargo para outros líderes da legenda se o pacto fosse aprovado. Não adiantou. Mesmo com o apoio de eurocéticos como o ex-chanceler Boris Johnson e o ex-ministro do Brexit Dominic Raab, os votos não foram suficientes. Isso demonstra que a autoridade de May sobre o partido e o governo está cada vez mais fraca.

O Partido Trabalhista e o Partido Nacionalista Escocês querem que May renuncie, convoque novas eleições e o prazo para o Brexit seja ampliado para incluir novas saídas para o impasse, que incluem um novo plebiscito ou até mesmo a anulação de todo o processo. 

Na votação, May foi derrotada por 334 votos a 286. Sem o apoio do DUP – partido norte-irlandês de sua coalizão e de eurocéticos de seu partido, ela conseguiu apenas 5 votos da oposição trabalhista e de 4 independentes. Faltaram 34 votos – justamente os de membros do Partido Conservador que rejeitaram o acordo pela terceira vez. 

Defensores do Brexit, que protestaram nesta sexta-feira em Londres, querem que o resultado do primeiro plebiscito seja mantido, mesmo que isso custe uma saída caótica da UE.

Nesta semana, os deputados deram-se poderes sem precedentes para tentar encontrar uma alternativa viável ao acordo do Brexit. Nenhuma das oito propostas votadas na quarta-feira, no entanto, obteve a maioria.

Algumas dessas ideias devem ser votadas novamente na segunda e na quarta-feira, mas tampouco há perspectiva de que qualquer delas seja adotada. “Basicamente, estaremos à mercê da União Europeia por uma extensão maior”, disse o cientista político Jon Tonge, da Universidade de Liverpool. 

“Apenas os deputados podem acabar com este pesadelo para as empresas”, disse Josh Hardie, vice-diretor geral dos empregadores da Confederação das Indústrias Britânicas. 

"O cenário de um Brexit sem acordo no dia 12  agora é um cenário provável", afirmou uma porta-voz da UE, destacando que os 27 países-membro se preparam para essa eventualidade desde dezembro de 2017. "A UE permanecerá unida", acrescentou.

"É urgente que o Reino Unido apresente nos próximos dias um plano alternativo (eleições legislativas, referendo, união aduaneira...). Senão, e isso se torna mais provável, descobriremos que o Reino Unido deixa a União Europeia sem acordo", afirmou a Presidência francesa nesta sexta.

Em busca de alternativas

Diante das evidências de que a maioria do Parlamento se opõe a uma saída abrupta, muitos conservadores eurocéticos se resignaram, nos últimos dias, a endossar um acordo que consideram "ruim", em vez de arriscar um longo adiamento - potencialmente fatal para o processo. 

Nesta semana, os deputados deram-se poderes sem precedentes para tentar encontrar uma alternativa viável ao acordo do Brexit. Nenhuma das oito propostas votadas na quarta-feira, no entanto, obteve a maioria, mas na próxima semana duas outras rodadas de consultas estão programadas, na segunda e na quarta-feira, para identificar uma solução que tenha o apoio do Parlamento.

"Estas 'votações indicativas' devem dar um resultado, apenas os deputados podem acabar com este pesadelo para as empresas", disse Josh Hardie, vice-diretor geral dos empregadores da Confederação das Indústrias Britânicas (CBI), mais uma vez denunciando a incerteza. 

Para o líder da oposição, o trabalhista Jeremy Corbyn, "isso tem que mudar agora, é preciso que encontrar uma alternativa". / W.POST, NYT, AFP e EFE

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