AP/Andrew Medichini
AP/Andrew Medichini

Derrota da Europa

Como fortalecer a Europa com Merkel enfraquecida e um líder na Itália que não gosta da UE?

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

06 Março 2018 | 05h00

Foi uma segunda-feira negra, para a Itália, e cinzenta para a Alemanha. É verdade que Angela Merkel conseguiu que os socialistas governem com ela, mas ao preço de concessões. No ano passado, ela era a senhora da UE. Hoje, está em observação. A Europa está insegura, mesmo com Emmanuel Macron dando continuidade ao trabalho de Merkel. E, com o impasse na Itália, como será a Europa de Macron? Provavelmente, uma UE fracionada, meio à deriva. 

A Itália não é pouca coisa. É a terceira potência europeia. As eleições de domingo foram um terrível golpe para a UE. Roma não vai deixar o bloco, como fez Londres, mas fará tudo para impedi-lo de avançar. Vejamos como foi o voto dos italianos.

O vencedor foi o inverossímil Movimento 5 Estrelas (M5S), criado pelo bufão Beppe Grillo, um demagogo hostil a tudo, vulgar e esperto. O M5S conquistou as prefeituras de Roma, de Milão e atraiu o eleitorado jovem. Com seus chavões apocalípticos, Beppe hipnotizou o país, enquanto a corrupção se infiltrava no M5S. Mas ele sabe a hora de deixar os holofotes. Será substituído por Luigi di Maio, um jovem educado, bem vestido, que fala corretamente. 

De fato, o M5S está com a corda toda. Obteve 32% dos votos, embora não sejam suficientes para formar o governo, sobretudo frente à coalizão de direita costurada pelo velho Silvio Berlusconi, que reúne a Força Itália, a Liga (antiga Liga Norte) e o pequeno, mas virulento, Irmãos da Itália (FdI). 

A Liga tem um líder agressivo, Matteo Salvini, que ataca o sistema, os imigrantes e a UE. Conquistou 20% dos votos e, com os aliados, forma um bloco que obteve 37% da votação – à frente, portanto, do M5S. É verdade que a coalizão de direita não é sólida. Enquanto a Força Itália é moderada, os outros partidos são antissistema. Berlusconi esperava chegar como líder da coalizão e inspirar um governo moderado. Não funcionou. Quem domina o bloco agora é a Liga e Salvini. 

E como ficam os partidos tradicionais pró-Europa? O Partido Democrático (PD), de Matteo Renzi, foi esmagado e ficou com apenas 20% dos votos. Conclusão: no futuro Parlamento, quem dará as cartas são os extremistas, como o M5S, e a direita violenta, como a Liga. O outro campo, o dos razoáveis e pró-Europa, ficou para trás, mesmo contando com os moderados de direita da Força Itália.

O M5S reclama o cargo de primeiro-ministro. O movimento é mais fraco que a coalizão de direita, mas tem a vantagem de estar sozinho, portanto, mais estável. Já a Liga diz que, com seus aliados, supera o M5S. Assim, o cargo de premiê seria seu. Imediatamente, o M5S contra-atacou, dizendo que a aliança Liga-Força Itália capotaria na primeira curva. 

O presidente Sergio Mattarella é um estrategista, mas, quando se tem em mãos coisas totalmente desencontradas, como construir uma casa razoavelmente estável? Seja qual for a composição, o novo governo será dominado pelos amargos que querem mandar 500 mil imigrantes de volta para a África e veem a UE como um tipo de peste. Como, nessas condições, reerguer a Itália? 

Felizmente, o presidente Mattarella dispõe de algum tempo antes de iniciar as sondagens para o futuro governo. Antes de escolher o homem que deverá levantar a Itália, ele terá de comparecer à inauguração da nova legislatura, dia 23. Esse intervalo talvez ajude Mattarella a retardar o avanço da Itália rumo ao caos. Na França, Macron está impaciente. Ele quer modernizar a UE, mas com que ajuda? De uma Merkel sem cacife? De um italiano que detesta a Europa? / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

 

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