JASON REED | Reuters
JASON REED | Reuters

Derrota de Rubio é o fim do bushismo

Senador foi vítima da fatalidade de ter olhado para trás; o que funcionou para Bush não funcionou para ele

Ross Douthat, The New York Times

18 de março de 2016 | 05h44

Nos últimos medíocres anos de seu governo profundamente impopular, George W. Bush continuou popular entre os eleitores republicanos. Depois que Barack Obama assumiu a presidência, a imagem de Bush foi projetada com uma iconografia anti-Obama e um insolente apelo “Com saudade de mim?”. Enquanto sua presidência caía no esquecimento, as notas favoráveis a Bush foram subindo, acima das do presidente Obama e de Hillary Clinton, à medida que a campanha de 2016 avançava.

Jeb Bush estava indubitavelmente consciente desses números quando tomou sua decisão fatal, destruidora, de candidatar-se a presidente. Mas também constavam claramente da leitura de Marco Rubio sobre o Partido Republicano, que acabou por levá-lo à derrota que determinou o fim de sua campanha: Mais ainda do que o próprio irmão de George W. Bush, Rubio tentou mostrar-se como o herdeiro do bushismo e construir uma ponte entre o último governo republicano e aquele que pretendia liderar.

A derrota de Rubio, como costuma ocorrer na política, teve diversas causas: base frágil, estratégia midiática atropelada pelo predomínio das TVs a cabo de Donald Trump, além de uma persona e um posicionamento que o tornaram uma segunda opção em todo o mapa, mas um vencedor parcial, com a aparência de um jovem na eleição de um “homem duro para tempos duros”.

Em termos puramente ideológicos, o que os eleitores das primárias estavam rejeitando quando o rejeitaram foi a síntese política de George W. Bush. Em termos de política interna, essa síntese tinha quatro pilares: um sincero conservadorismo social arraigado num discurso pessoal sobre a fé; um “conservadorismo humanitário” de caráter centrista em questões relacionadas à pobreza e à educação; a busca de uma reforma abrangente da questão da imigração como meio para atrair o voto latino; e amplos cortes dos impostos generalizados para acalmar os doadores do partido e o pessoal do lado da oferta.

Quanto à política externa, o bushismo começou com a promessa de comedimento, mas ultimamente passou a significar certo belicismo visto pelo prisma do idealismo wilsoniano, a visão de uma América empenhada numa cruzada, com interesses e valores perfeitamente alinhados.

Desde sua chegada ao Senado, Rubio pareceu preocupado em imitar essa combinação de ideias. Aderiu às propostas e ao pessoal neoconservador da área de política externa. Tornou-se o rosto da ampla reforma da imigração, fase três. Foi atraído por uma nascente geração de ativistas evangélicos e católicos. Elaborou um programa de política interna repleto de ideias “reformistas conservadoras”. Depois, para assegurar que ninguém o acusasse de macaquear o redistributivismo, anexou tais ideias a um corte geral dos impostos sobre o capital e as empresas.

Impacto. Do ponto de vista político, essa não foi absolutamente uma estratégia tresloucada. Apesar de todos os seus erros, George W. Bush continua sendo o único candidato republicano à presidência que conquistou o voto popular nos últimos 25 anos e a única figura capaz de unir e liderar com sucesso um partido turbulento.

Certas partes do bushismo parecem mais otimistas, abrangentes e economicamente relevantes do que a mensagem mais irada do Tea Party que Rubio brandiu em sua campanha ao Senado, em 2010, ou as mensagens genéricas dirigidas ao “Sr. Republicano” com as quais John McCain e Mitt Romney perderam em 2008 e em 2012.

Desejos. Com o Oriente Médio em chamas, a Rússia cada vez mais agressiva e o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, é possível perceber por que muitas elites conservadoras imaginaram que os americanos – e eleitores republicanos das primárias, principalmente – poderiam querer um sucessor de Obama mais agressivo, na mesma linha de Bush.

Infelizmente para Rubio, os republicanos não quiseram nada disso. Eles não quiseram uma reforma abrangente da imigração, o que não deveria surpreender porque tampouco a quiseram quando Bush foi presidente. Eles não quiseram uma versão otimista de conservadorismo social da próxima geração, preferindo a religião dos velhos tempos, de Ted Cruz, ou Donald Trump como guardião pagão da Igreja num ambiente pós-cristão.

Eles não deram importância à dimensão do corte dos impostos de Rubio, porque todos os candidatos prometiam grandes cortes, todos igualmente pouco plausíveis, e, por outro lado, os eleitores – até mesmo os eleitores conservadores – não são tão obcecados pelos impostos como eram nos dias gloriosos de Reagan.

Eles queriam, talvez, uma política interna diferente da plataforma pouco criativa de Romney, que prometia menos aos ricos e mais à classe trabalhadora. Mas o morno conservadorismo reformista de Rubio foi superado e esmagado pelas promessas mirabolantes de Trump.

E quiseram um tipo de agressividade, mas não a agressividade wilsoniana, ao serviço de uma grande e ambiciosa estratégia elaborada para estabilizar ou reconstruir o Oriente Médio. Eles queriam uma agressividade jacksoniana, que prometia a destruição dos nossos inimigos sem a caótica construção de uma nação.

Esses desejos não representam uma nova síntese republicana e os candidatos que trataram deles com mais sucesso não criaram nenhuma. O jacksonianismo populista de Trump não pode unir o partido como Bush fez, e por outro lado, o inflexível conservadorismo social e econômico de Cruz provavelmente não pode ganhar o eleitor médio.

Às vezes, a biografia de Rubio, sua juventude e eloquência pareciam torná-lo o candidato natural de um partido em busca de “o que virá a seguir”. E, de certo modo, ele foi vitimado por um eleitorado conservador com medo do futuro, que quer que toda “nova” síntese recrie simplesmente as glórias de um passado americano que se foram.

Mas ele também foi vítima da fatalidade de ter olhado para trás, de pressupor que o que funcionou para o último presidente republicano poderia voltar a funcionar. Não funcionou, nem poderia e provavelmente não será tentado outra vez: seja quem for o pré candidato que conseguir a indicação do partido para concorrer em novembro, George W. Bush foi derrotado. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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