Derrota do EI demanda cooperação Rússia-EUA

Para Ayham Kamel, diretor da consultoria Eurásia, solução passa por um acordo de paz na Síria, onde americanos e russos divergem

Cláudia TrevisanCORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2015 | 06h47

Será “muito difícil” derrotar o Estado Islâmico. Demandaria um esforço militar mais amplo, um acordo de paz na Síria e a cooperação entre Estados Unidos e Rússia. A avaliação é de Ayham Kamel, diretor para o Oriente Médio e Norte da África da consultoria Eurásia. Ele, no entanto, salienta: “A maioria desses elementos ainda não existe, mas isso pode mudar”.

Kamel não acredita em mudanças significativas na estratégia militar da coalizão liderada pelos Estados Unidos para combater o grupo. No curto prazo, o analista prevê o aumento de bombardeios aéreos na Síria e no Iraque, mas considera improvável a mobilização de tropas estrangeiras em grande escala.

Os ataques de Paris, ele diz, podem reduzir a pressão ocidental pela deposição do presidente da Síria, Bashar Assad. Esse é o principal ponto de divergência entre os Estados Unidos e a Rússia, que iniciou operações militares na Síria em setembro. Washington insiste que qualquer solução para a guerra civil no país deve incluir a saída de Assad do poder, enquanto Moscou defende o apoio a ele no combate ao EI.

“Isso deve afastar as conversas sobre uma solução diplomática na Síria do foco pela deposição de Assad e colocá-las na direção da formação de um governo de unidade nacional, com a realização de eleições e trabalho conjunto do regime e da oposição na derrota do EI”, disse.

Primeira grande ação do Estado Islâmico (EI) no Ocidente, os ataques de Paris representam uma mudança “monumental” na estratégia da organização e demonstraram sua capacidade de realizar atentados simultâneos que chegaram perto do presidente da França, François Hollande, avalia Kamel.

Mas isso não significa que o grupo abandonará o foco em sua base, onde conseguiu se expandir muito além das fronteiras do território que controla no Iraque e na Síria.

Para o analista, os ataques de Paris são os mais significativos desde os promovidos pela Al-Qaeda nos EUA no dia 11 de setembro de 2001. “Na história da jihad, mesmo no 11 de Setembro, nós nunca vimos ataques simultâneos em sete localidades, entre as quais o estádio onde estava o presidente da República”, disse ao Estado.

Segundo Kamel, a ação em Paris revela um movimento de internacionalização do EI, que até agora estava focado no Oriente Médio e no Norte da África. Apesar de a mudança aproximar o grupo do perfil da Al-Qaeda – que dava prioridade à ação internacional – ele continua a se diferenciar pela escala de suas operações nos países que formam sua base de atuação. “Eles estão adotando um modelo híbrido, com foco tanto na região quanto no Ocidente”, afirmou.

Antes da ação em Paris, o EI reivindicou a autoria de uma série de atentados no Oriente Médio e Norte da África nos últimos meses, que deixaram centenas de mortos no Egito, Iraque, Arábia Saudita, Iêmen, Kuwait Tunísia, Líbano e Líbia. Só na semana passada, ataques suicidas atribuídos ao grupo atingiram Bagdá e Beirute. Em 31 de outubro, um avião de passageiros russo caiu no Egito, matando as 224 pessoas a bordo, em um atentado reivindicado pelo EI.

O EI tem conseguido se expandir com a conquista de simpatizantes em vários países do Oriente Médio e Norte da África e a adesão de grupos terroristas que se unem às suas fileiras, observou Kamel. “É a mais vibrante organização na jihad global.” O analista ressaltou que a expansão é facilitada pelo vácuo de poder em lugares como Líbia, Iraque, Síria e Iêmen.

Iniciada há quase cinco anos, a guerra civil síria provocou a morte de 250 mil pessoas e criou um terreno fértil para a expansão de grupos extremistas.

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