Derrota em primárias leva kirchneristas a negociar deserções

Perspectiva de eleição de um sucessor para Cristina em 2015 faz políticos argentinos reverem alianças

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2013 | 02h03

Prefeitos, governadores e parlamentares do Partido Justicialista (Peronista) que respaldavam a presidente argentina, Cristina Kirchner - e antes dela, seu marido e antecessor, o ex-presidente Néstor Kirchner -, emitiram sinais de uma grave dispersão ao longo da última semana.

O resultado das eleições primárias obrigatórias, no domingo passado, constituiu um duro golpe para o governo, ao indicar que as forças leais ao kirchnerismo (uma sublegenda do peronismo) obtiveram em todo o país apenas 26% dos votos, o mais baixo desempenho eleitoral em uma década do governo. Os diversos partidos de oposição em conjunto (entre eles, o peronismo dissidente) reuniram 74% dos votos.

Diversos líderes kirchneristas indicaram que o governo de Cristina tem graves problemas. "Foi uma enorme surra. O povo está zangado", afirmou o ex-prefeito da cidade de José Clemente Paz, Mario Ishii, kirchnerista e um dos "barões da Grande Buenos Aires", denominação dos caudilhos que abasteciam o kirchnerismo com os votos dos empobrecidos municípios ao redor da capital argentina.

Discretamente, governadores kirchneristas criticam as ações da presidente Cristina, enquanto seus assessores iniciam contatos com representantes do peronismo dissidente, de olho em uma sobrevivência política além de outubro, quando ocorrem as eleições parlamentares que definirão o mapa do poder dos próximos dois anos.

"Se o barco afunda por teimosia do capitão, vamos procurar os botes salva-vidas", disse ao Estado um assessor de um senador kirchnerista do norte do país ao confirmar o início de tempos "pós-kirchneristas". Depois de um sorriso irônico, ele completou: "Não somos a orquestra do Titanic para tocar até o mortal final".

A presidente Cristina tem pela frente um cenário no qual será impossível reformar a Constituição, já que, se o resultado das primárias se repetir em outubro, o governo não obterá os dois terços do Parlamento. Esse é o patamar imprescindível para reformar a Carta e, assim, tentar o projeto "Cristina eterna", denominação do plano de reeleições ilimitadas.

Analistas indicam que, neste momento, os expoentes do pós-kirchnerismo são duas figuras que se tornaram referência na Província de Buenos Aires, território político crucial para definir uma eleição, já que aglutina 38% do eleitorado e 40% do PIB argentino.

Um deles é o governador bonaerense, Daniel Scioli, kirchnerista moderado que, perante a impossibilidade de uma nova candidatura de Cristina, seria o escolhido do governo - a contragosto - para a sucessão presidencial em 2015.

O outro é Sergio Massa, ex-chefe do gabinete de ministros de Cristina que rompeu com o kirchnerismo. Ele se tornou a estrela das eleições primárias há uma semana ao derrotar o candidato de Cristina, Martín Insaurralde. Massa obteve 35% dos votos, enquanto Insaurralde ficou com 29%.

"O crepúsculo de um líder no peronismo começa quando confluem dois fenômenos: a derrota em uma eleição e a impossibilidade de se manter no cargo por razões constitucionais. Esses dois fatores confluem agora", declarou ao Estado o sociólogo e analista Carlos Fara.

Enquanto isso, os aliados da presidente Cristina começam a se preocupar com a crescente irritação que ela demonstra em discursos e no Twitter. No meio da semana, durante evento em uma exibição sobre tecnologia, a presidente fez um discurso no qual ignorou a derrota nacional de seu governo e vangloriou-se da vitória que teve nas urnas na Antártida, entre os militares e cientistas que residem nas bases do continente gelado.

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