Fernando Llano/AP
Fernando Llano/AP

Derrota nas urnas pressiona Maduro para abrir diálogo com a oposição

Líder chavista indica novo vice-presidente moderado para destravar impasse com presidente da Assembleia Nacional sobre posse de deputados impugnados pelo Supremo

Ricardo Galhardo, O Estado de S. Paulo

17 Janeiro 2016 | 02h00

CARACAS - “Aqui o diálogo é notícia porque é excepcional. Se fosse frequente, não seria notícia”, disse o presidente da Assembleia Nacional venezuelana, Henry Ramos Allup, após o discurso de prestação de contas do presidente Nicolás Maduro. Desde a posse da oposição na Assembleia, no dia 5, o chavismo tem sido obrigado a flexibilizar a posição intransigente e hegemônica dos últimos 17 anos e dialogar com os adversários. 

Allup, um político experiente, com décadas de disputas eleitorais, tem sido um destes canais. Pelo lado do governo, o recém-empossado vice-presidente Aristóbulo Istúriz, professor universitário, chavista de primeira hora, mas visto como um moderado, é quem cumpre essa missão. 

Na semana passada, Istúriz e Ramos Allup trocaram dezenas de telefonemas em busca de uma saída institucional para o impasse sobre os três deputados do Estado do Amazonas que tiveram as candidaturas impugnadas, mas tomaram posse na Assembleia. O Executivo se recusava a admitir a legitimidade do Legislativo se os deputados não fossem excluídos do Parlamento.

Diante da possibilidade de acirramento do impasse, os dois conseguiram convencer tanto a bancada governista quanto a maioria oposicionista a se ausentarem da sessão de quarta-feira, ganhando mais tempo para o diálogo. Na mesma noite os deputados impugnados pediram a desincorporação da Assembleia, Allup acatou a decisão do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) e o impasse foi superado sem traumas nem violência. Pouco depois foi revelado que a deputada Cilia Flores, mulher de Maduro, participou ativamente do diálogo.

Para a oposição, a nova postura do governo é uma das primeiras consequências do resultado das eleições parlamentares de 6 de dezembro. “O governo está atravessando a etapa do luto, quando se tem uma perda. A dor, a negação, a depressão até chegar à aceitação. Em todo caso, o importante é que o governo aceite que o país mudou radicalmente, que aceite que as pessoas querem o diálogo, não aceitam mais viver em um país de enfrentamento permanente”, disse o deputado Julio Borges, líder da oposição na Assembleia. 

Segundo analistas, a grave situação econômica do país foi fundamental para a mudança de atitude. Os dois lados da disputa avaliam que a derrota do governo nas eleições parlamentares é um recado da população sobre a economia.

“Essa iniciativa de diálogo acontece porque tanto governo quanto oposição entendem que a crise econômica é muito grave. A maioria da população não vai perdoar se os dois lados não apresentarem uma proposta conjunta para a situação”, disse o cientista político Carlos Romero.

Embora esteja prevista na Constituição, a própria ida de Maduro ao Congresso para prestar contas foi considerada uma vitória da moderação diante do risco permanente de violência entre os polos, como durante as manifestações que deixaram dezenas de mortos em 2014. 

Em seu discurso, Maduro demonstrou uma cordialidade atípica no atual ambiente político venezuelano, abriu sua fala reconhecendo Allup como “presidente constitucional da Assembleia Nacional”, o que foi interpretado como um reconhecimento oficial da legitimidade do Parlamento, cumprimentou primeiro a bancada de oposição antes dos deputados governistas, exortou diversas vezes o país ao diálogo como saída para a crise e chegou a fazer uma brincadeira com o presidente da Casa, chamado de “líder em chefe da oposição”.

Em conversas reservadas, parlamentares governistas dizem que a continuidade do movimento do governo rumo ao caminho do diálogo depende agora do deputado Diosdado Cabello, considerado o número 2 do chavismo, adversário interno de Maduro e líder da ala militar, que teria se queixado a colegas sobre uma suposta tentativa do presidente de isolá-lo no bloco parlamentar. 

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