Desabastecimento ameaça o apoio popular ao novo mandato chavista

Crise de alimentos. Com Chávez internado em Havana e em meio à incerteza sobre quem governa o país, Caracas declara guerra aos supermercados privados; açúcar, frango, óleo de cozinha e farinha de milho sumiram das prateleiras e começam a ser racionados

ROBERTO LAMEIRINHAS , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2013 | 02h03

Com um presidente gravemente doente em Havana e em meio à incerteza sobre quem está administrando o país, o governo venezuelano que iniciou um novo mandato na quinta-feira - sob forte contestação da oposição - declarou nos últimos dias uma guerra para combater o desabastecimento de produtos que ameaça corroer seu apoio popular.

Açúcar, frango, óleo de cozinha, farinha de milho e papel higiênico estão escassos nas prateleiras dos supermercados privados e são racionados, quando existem, nos centros de abastecimento estatais, como os "Mercales" e "Armazéns Bicentenário". Episódios de desabastecimento não são inéditos no país, que mantém preços tabelados e uma taxa de câmbio oficial fixada em um valor quatro vezes inferior à cotação flutuante do mercado negro.

Em várias operações que contaram com o apoio da Guarda Nacional Bolivariana - um dos ramos das Forças Armadas -, agências reguladoras do governo expropriaram centenas de toneladas de produtos estocados em armazéns privados.

Só em um galpão da companhia Polar, uma das maiores distribuidoras de produtos alimentícios do país, uma dessas operações apreendeu, na semana passada, 130 toneladas de farinha de milho, o ingrediente básico da arepa, uma espécie de pão que é a base da alimentação dos venezuelanos.

Ao longo de seus 14 anos de duração, o governo do presidente Hugo Chávez sempre atribuiu a falta de produtos à especulação dos comerciantes. Os empresários, por seu lado, se defendem alegando que os preços tabelados não cobrem os custos da produção e não têm divisas para a importação de insumos e produtos para garantir a satisfação total da demanda.

"Para investir na produção, os empresários têm de recorrer a divisas estrangeiras compradas por até 19 bolívares fortes por dólar, em contraste com a cotação oficial de 4,3 bolívares por dólar", explicou ao Estado o economista da consultoria Veneview, de Caracas, Ramón Cruz. "O ciclo produtivo já começa com um custo entre quatro e cinco vezes maior do que o previsto."

"Só consegui comprar açúcar no mercado negro", disse o pintor de paredes José Luis, na saída do centro de abastecimento estatal do distrito de Chacaito, em Caracas. "Paguei 10 bolívares por 2 quilos, quando deveria pagar menos de 3 bolívares."

"Chávez está cuidando de sua saúde no exterior, mas os problemas do país não foram a Cuba. Seguem aqui", cobrou, na sexta-feira, o candidato derrotado por Chávez na eleição presidencial de 7 de outubro e governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles. "Precisamos saber quem está mandando no país."

Uma parte da oposição, no entanto, vê as operações de apreensão de alimentos - uma versão venezuelana das "prisões do boi no pasto" durante o Plano Cruzado, nos anos 80, no Brasil - como uma "cortina de fumaça" para acobertar outras ações do governo. "A apreensão de farinha de milho no armazém da Polar foi mais um show do governo chavista", afirmou Luis Vicente León, diretor do instituto de pesquisas Datanálisis.

"O produto estava lá, num centro de distribuição, esperando transporte. Não havia sonegação de farinha de milho. E a quantidade não era tão significativa para caracterizar uma ação de especulação. Se distribuída por todo o território nacional, ela não ficaria nem cinco minutos nas prateleiras dos supermercados. O que o governo se recusa a entender é que a solução para o desabastecimento passa por investimento no setor produtivo."

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