Desabrigados no Peru iniciam saques

Sem comida desde o terremoto de quarta-feira, eles se desesperam com demora para distribuição de ajuda humanitária

Roberto Lameirinhas, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2018 | 00h00

Os episódios de tentativa de saque - até então esporádicos após o terremoto de 8 graus na escala Richter que abalou várias cidades peruanas na quarta-feira - começaram a tornar-se mais comuns ontem.   Veja galeria de fotosDesesperados com a falta de comida e água potável e revoltados com o que qualificam de lentidão do governo em distribuir a ajuda que chega aos poucos à devastada Pisco, cidade costeira cerca de 250 quilômetros ao sul de Lima, dezenas de moradores locais atacaram ontem de manhã caminhões que chegavam da capital para prestar assistência às vítimas. Casos semelhantes foram registrados também em Ica e Chincha, as outras duas entre as cidades mais afetadas."Desde o tremor que não temos nada de comida nem água. Dormimos ao relento e não chegam as tendas de campanha que nos prometeram", gritou uma jovem que não quis dizer o nome ao perceber a presença de jornalistas. "Onde está o governo? Cadê a ajuda internacional? Onde está o Lula (o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva), que não nos ajuda?", acrescentou, ao identificar a nacionalidade do repórter do Estado.Na Ponte San Clemente, que dá acesso a Pisco, os saqueadores atacaram os caminhões - parados numa imensa fila por causa dos extensos danos que o tremor causou à via - e um posto de gasolina das proximidades.Desnorteada e com poucos homens para garantir a segurança no local, a polícia peruana fez disparos para o alto para conter a multidão.Autoridades peruanas reconheceram que a maior parte dos saqueadores agia sob os efeitos de uma situação-limite, mas lembraram que mais de 600 detentos escaparam em Chincha, a cerca de 50 quilômetros de Pisco, depois que o tremor derrubou as paredes de suas celas - dando a entender que eles poderiam estar infiltrados nos grupos de saqueadores.Diante das ruínas da Igreja San Clemente - onde se estima que 250 pessoas tenham morrido no tremor -, na Praça de Armas, soldados do Exército forçavam a formação de uma fila para a distribuição de garrafas de água mineral, no primeiro lote de ajuda a chegar à população de Pisco desde a catástrofe.O governo do presidente Alan García, que instalou na base aérea dos arredores da cidade um gabinete de emergência, atribuiu a demora na entrega da assistência à população aos danos sofridos pela principal via de acesso ao local, a Rodovia Panamericana. O tremor abriu fendas profundas na estrada e uma parte dela simplesmente desapareceu, encosta abaixo.A situação de calamidade e escassez de água e alimentos agrava-se com a chegada de milhares pessoas, de várias partes do país, a Pisco para reconhecer parentes mortos. Da ponte danificada até o centro da cidade - de aproximadamente 130 mil habitantes -, os visitantes têm de fazer longas caminhadas, por causa do colapso do sistema de transporte.

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