Mark Wilson / AFP
Mark Wilson / AFP

Desafiador, Obama discursa em favor da classe média

Em discurso anual, presidente defende retomada de relações com Cuba e pediu autorização para uso da força contra radicais

Cláudia Trevisan, de Washington / Correspondente, O Estado de S. Paulo

21 de janeiro de 2015 | 01h26


WASHINGTON - Em seu primeiro discurso sobre o Estado da União a um Congresso controlado pelos republicanos, o presidente americano, Barack Obama, apresentou um pacote de medidas redistributivas que enfrentam forte resistência da oposição e propôs o aumento de impostos sobre os mais ricos para financiar programas em favor da classe média, a expansão de direitos trabalhistas e investimentos na combalida infraestrutura americana.

Na política externa, pediu ao Congresso que levante o embargo econômico a Cuba e anunciou que solicitará autorização dos parlamentares para o uso da força contra o Estado Islâmico -os bombardeios contra posições do grupo extremista iniciados agosto são feitos com base em legislação aprovada logo depois dos ataques de 11 de setembro de 2001.


Obama defendeu sua decisão de retomar por decreto as relações diplomáticas com Cuba, encerrando um rompimento de 53 anos. “Nossa mudança na política para Cuba tem o potencial de colocar fim a uma herança de desconfiança no nosso hemisfério, remover uma falsa desculpa para restrições em Cuba, defender valores democráticos e estender a mão da amizade ao povo cubano”, afirmou.

No plenário do Câmara dos Deputados, o americano Alan Gross foi aplaudido de pé por democratas e republicanos. Preso durante cinco anos em Cuba, ele foi libertado em dezembro no âmbito das negociações que levaram à mudança na relação entre os antigos adversários da Guerra Fria. Apesar do gesto, a maior parte da oposição é contrária à revogação do embargo imposto em 1960.

Fortalecido pelos bons resultados da economia e o aumento de sua popularidade, Obama declarou vitória sobre a mais longa recuperação econômica dos EUA e propôs ontem ao Congresso “virar a página” da história dos últimos 15 anos, marcada pela guerra ao terror e a mais profunda recessão das últimas sete décadas. “A sombra da crise passou e o Estado da União é mais forte”, declarou Obama.

Apesar da aceleração no crescimento, a renda média dos americanos se mantém estagnada, enquanto os ganhos financeiros dos mais ricos sobem no ritmo das altas recordes da Bolsa de Valores de Nova York. “Nós vamos aceitar uma economia na qual apenas alguns se dão espetacularmente bem? Ou vamos nos comprometer com uma economia que gera crescentes rendimentos e chances para todos os que se esforçam?”, perguntou Obama, defendendo o que chamou de “economia da classe média”.

Para reverter a desigualdade, ele propôs elevar impostos sobre ganhos de capital dos mais ricos. Se aprovadas, as medidas vão gerar receita de US$ 320 bilhões em dez anos. Esses recursos seriam utilizados para financiar benefícios para a classe média e trabalhadores, entre os quais o aumento da oferta de creches e o acesso gratuito a faculdades comunitárias, medida que consumiria US$ 60 bilhões nos próximos dez anos.

Aumentos de impostos são rejeitados de maneira dogmática pelos republicanos, que veem a maior tributação como uma ameaça aos investimentos e à livre economia. Pesquisas de opinião, no entanto, mostram que a maioria dos americanos acredita que os mais ricos pagam menos impostos do que deveriam.

“O presidente transferiu aos republicanos o ônus de decidir sobre propostas que têm apelo popular”, disse Gabrielle Trebat, da consultoria McLarty Associates.


Obama terá mais facilidade em obter dos republicanos a autorização para os ataques contra o Estado Islâmico. Apesar de sustentar que as operações são legais, Obama cedeu aos argumentos dos que defendem a necessidade de uma lei específica para a operação.

Segundo ele, as ações contra o grupo extremista conseguiram conter seu avanço na Síria e no Iraque, mesmo sem a mobilização de tropas americanas terrestres. “Nós estamos apoiando uma oposição moderada na Síria que pode nos ajudar nesse esforço, e ajudando pessoas em todos os lugares que podem se opor à ideologia falida do extremismo”, disse Obama.

As ações da Rússia na Ucrânia foram alvo das principais críticas do discurso de Obama. “Hoje é a América que está forte e unida com nossos aliados, enquanto a Rússia está isolada, com sua economia em frangalhos.”

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