AFP PHOTO / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Brett Carlsen
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Desafio a Trump testa limites do patriotismo

Metade dos americanos apoia e a outra diz que protesto durante o hino é desrespeito

Cláudia Trevisan, correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2017 | 05h00

WASHINGTON - Durante 21 anos John Middlemas serviu na Marinha dos EUA e passou incontáveis semanas em submarinos durante a 2.ª Guerra, o conflito na Coreia e a Guerra Fria que opôs os EUA ao mundo comunista. Há uma semana, o veterano de 97 anos enviou a seu neto uma foto em que aparece ajoelhado, em uma demonstração de solidariedade aos jogadores negros da NLF criticados pelo presidente Donald Trump por se manifestarem durante a execução do hino nacional em jogos da liga.

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Brennan Gilmore decidiu postar a imagem de seu avô no Twitter, acompanhada da mensagem transmitida por ele: “Esses garotos têm todo o direito de protestar”. A mensagem viralizou e colocou Middlemas no centro do debate que consome a sociedade americana desde que Trump chamou de “filhos da p...” os jogadores que se negam a ficar de pé durante a execução do hino nacional em protesto pela violência policial contra os negros.

“Os americanos têm discordado sobre o significado de patriotismo desde o começo da República”, disse ao Estado E.J. Dionne, colunista do Washington Post e professor da Universidade Georgetown. Middlemas representa a concepção abrangente, que tem raízes nos valores expressos nos documentos fundadores dos EUA, entre os quais a liberdade de expressão e a possibilidade de divergência. Trump é o porta-voz de uma visão mais estreita, que exalta os símbolos que seriam a expressão do orgulho nacional.

Em entrevista ao Estado, Gilmore disse que uma das motivações de seu avô em compartilhar sua imagem de joelhos foi a percepção de que o presidente dos EUA estava usando os veteranos de guerra do país para promover sua visão de patriotismo. Com problemas de audição, o veterano disse por meio de seu neto que não se sente ofendido pela decisão dos atletas de se ajoelharem durante a execução do hino. “De nenhuma maneira é desrespeitoso. Eu aprendi a viver e morrer por isso”, afirmou Middlemas.

Pesquisa da CNN divulgada na sexta-feira mostrou que a população americana está dividida entre essas duas visões de patriotismo. Para 46% dos entrevistados, protestar durante a execução do hino nacional é um desrespeito às liberdades que ele representa. Na opinião de 45%, os protestos são uma demonstração concreta dessas liberdades.

Muitos dos fãs da NFL, a liga de futebol americano, são eleitores de Trump e concordam com a visão do presidente de que a decisão de jogadores de se ajoelhar durante o hino é ofensiva. A pesquisa da CNN mostrou que há mais americanos alinhados com a posição Trump do que com os jogadores manifestantes, ainda que por pequena margem. No levantamento, 49% dos entrevistados disseram que os atletas que se ajoelham durante a execução do hino agem de maneira equivocada, enquanto 43% afirmaram que eles estão corretos.

O uso de eventos esportivos para o protesto contra injustiças raciais ou sociais é uma longa tradição nos EUA. Em 1968, os atletas negros Tommie Smith e John Carlos levantaram os punhos cobertos com luvas negras quando subiram ao pódio para receber medalhas olímpicas no México. O gesto ocorreu durante a execução do hino nacional americano e foi uma referência explícita à luta contra a segregação racial que se desenrolava no país.

Dois anos antes, Muhammad Ali colocou sua carreira em risco ao rejeitar a convocação para lutar na Guerra do Vietnã. Na época, a maioria esmagadora da população americana apoiava o engajamento do país no conflito. O boxeador foi suspenso e ficou três anos sem lutar, até que sua rejeição ao conflito ganhou popularidade nos EUA.

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A pesquisa da CNN revelou que as posições em relação aos protestos continuam a ser marcadas pela questão racial. Entre os brancos, 59% condenam a ação dos jogadores. A ação é celebrada por 82% dos negros. O contraste também é evidente na filiação partidária: 87% dos republicanos dizem que os atletas estão errados, enquanto 72% dos democratas apoiam os protestos.

Mas os diferentes grupos se aproximam quando avaliam que as ações de Trump mais dividem do que unem o país. Essa foi a opinião de 66% dos entrevistados em pesquisa Washington Post/ABC News divulgada na semana passada. A opinião é compartilhada mesmo por grupos que compõem a base de sustentação do presidente: quase metade da população rural, 61% dos homens, 62% dos que não têm educação superior, 58% dos que têm mais de 50 anos e 55% dos brancos.

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