REUTERS/Peter Nicholls
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Desafio de agradar aos ferozes conservadores

Nova premiê inicia a perigosa tarefa de escolher um gabinete que equilibre os interesses dos degoladores de seu partido

Helen Lewis, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2016 | 05h00

“Brexit quer dizer Brexit e vamos transformar isso num sucesso”, afirmou Theresa May na segunda-feira. Foi a única nota dissonante em um discurso claro e abrangente. Então, Brexit significa Brexit. Mas o que isso quer dizer? No referendo do dia 23 sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, 52% dos eleitores se manifestaram pela saída, sendo divulgados poucos detalhes sobre o que exatamente isso implica ou como será feito. Pelo “fica”, votaram 48%. Negociar um acordo que satisfaça aos dois grupos – ou mesmo apenas a uma saudável minoria – será uma difícil tarefa para o novo governo.

Além disso, a saída do país da UE será supervisionada por alguns que defendiam a permanência, embora timidamente. A garantia de May soa um pouco como se seu compromisso com o Brexit fosse dirigido aos colegas, alguns ardentemente eurocéticos. É desses que vem a maior ameaça para May.

Agora, ela dá início à perigosa tarefa de escolher um gabinete que equilibre os interesses divergentes dos degoladores do Partido Conservador. Inevitavelmente ela será comparada a Margaret Thatcher, mas uma comparação melhor seria com Angela Merkel: são trabalhadoras incansáveis, pragmáticas e de uma sobriedade que beira a monotonia.

Não há duvidas de que May herdou um país com enormes desafios. Os conservadores ganharam a última eleição insistindo que tinham um “projeto econômico de longo prazo”. O voto pela saída da UE marcou o abandono desse plano. Após anos de austeridade, o governo desistiu da meta de um superávit orçamentário em 2020. Isso é uma dádiva para May do ministro das Finanças, George Osborne: livra a premiê de tentar impossíveis cortes profundos nos serviços públicos.

Um problema maior é a imigração. No Ministério do Interior, May era uma linha-dura na questão, apoiando uma cota de migração bem definida. Agora, terá de conciliar a crescente onda de xenofobia com a realidade de que aceitar a liberdade de locomoção é pré-requisito para o acesso ao mercado único europeu.

Na questão do Brexit, a melhor saída foi terceirizar as tortuosas negociações para alguém com insuspeitas credenciais anti-Europa. Ela nomeou um “ministro para o Brexit”. Isso pode não ser o suficiente para os colegas eurocéticos não acharem que ela está amarrando o processo. Se Brexit não significar Brexit, eles vão afiar seus longos punhais. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É JORNALISTA

 

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