Desafio de Felipe VI é unir Espanha dividida

Segundo pesquisas, novo monarca tem mais aceitação que o pai entre a população, que também espera dele participação mais ativa na política

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / MADRI, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2014 | 02h02

Embora a Espanha tenha visto crescer nos últimos dez anos, especialmente entre os mais jovens, a preferência pela República como forma de governo, uma pesquisa recente do jornal La Vanguardia - que entrevistou mil pessoas - revela que 52% da população apoia a monarquia.

Mesmo assim, o governo espanhol tomou medidas para evitar protestos durante a entronização de Felipe VI na quinta-feira em Madri, reforçando a segurança na região da praça Puerta del Sol, no centro da capital.

Outra pesquisa, publicada ontem pelo jornal El País, mostrou que a maior parte dos espanhóis quer o novo rei mais envolvido na política do país. De acordo com o resultado da sondagem, cerca de 75% da população crê que o monarca deve interferir como mediador caso políticos e seus partidos não consigam chegar a acordos sobre determinadas questões.

Não é uma tarefa simples, já que um ambiente de desunião paira sobre a Espanha mesmo nos dias que deveriam ser de festa nacional. Embora a Praça do Oriente, em frente ao Palácio Real, estivesse tomada por milhares de pessoas para saudar o novo rei em sua primeira aparição na sacada, chamou a atenção de espanhóis e da imprensa internacional a ausência de pessoas nas outras ruas da cidade.

Muitos espanhóis fizeram questão de mostrar sua reprovação à sucessão na chefia do Estado porque são republicanos ou porque nunca foram verdadeiros monarquistas - e sim admiradores de Juan Carlos. Muitos também não têm mais interesse na política do país, minada pela corrupção.

"Estamos na Europa do século 21. É preciso deixar que as pessoas se manifestem sobre seus destinos", disse Fernando Muñoz, estudante que acompanhava, sem entusiasmo, o desfile do novo rei em carro aberto na Gran Vía, no centro de Madri. "Eu prefiro a democracia presidencialista, que me parece ser a melhor expressão da república."

Para Javier Ruiz, doutor em ciência política e professor da Universidade Carlos III, de Madri, no imaginário dos espanhóis o rei não se integra ao sistema de valores contemporâneo. O que resta é um símbolo e uma atitude prática: é preciso ter um chefe de Estado e, para muitos, uma família real cai bem.

"A monarquia hoje é essencialmente uma forma de acesso à chefia do Estado. No Brasil, o acesso é feito via eleições. Nas monarquias parlamentares, como a Espanha, o acesso se dá por ter nascido em determinada família", explicou. "Mas a atuação do monarca hoje ocorre em um ambiente político e social que tem demandas e é sensível. Por isso, a monarquia é afetada pela crise econômica e institucional."

Essa crise se refletiu nas prioridades manifestadas por Felipe VI em seu primeiro discurso. O novo rei fez um discurso três vezes mais longo e mais modesto do que o feito pelo pai, em 1975. Na ocasião, Juan Carlos colocou-se como guardião de um país ainda à procura da abertura política e do estado de direito, posicionando-se como "o primeiro soldado" do país.

Felipe VI insistiu em questões que não são de sua alçada - o desenvolvimento econômico e o desemprego - e prometeu uma monarquia ilibada. "Nada me honraria mais que, com meu trabalho e esforço, fazer os espanhóis se sentirem orgulhosos de seu novo rei", disse.

Para analistas políticos, a diferença entre os discursos de pai e filho evidencia que no passado a Espanha contava com uma monarquia capaz de se colocar no centro do debate político, enquanto hoje é uma instituição acuada, cuja melhor promessa é não cometer deslizes.

Essa ambição, no entanto, é vista como insuficiente até por alguns líderes políticos do país, principalmente aqueles que mais se preocupam com o risco representado pelos movimentos separatistas, em especial na Catalunha, região onde segue firme a disposição de realizar uma consulta popular sobre a independência, e no País Basco. O plebiscito catalão - que somente teria valor legal se consultasse toda a população do país - está marcado para 9 de novembro.

Artur Mas, governador da Catalunha, está entre os que contestam Felipe VI. O catalão gostaria de ouvir o rei propor melhoras na relação de Madri com os governos regionais. "Creio que em algum momento será necessário explicar: somos um Estado plurinacional."

A intermediação do diálogo entre os movimentos separatistas e o poder central é o que muitos esperam de Felipe VI. Em editorial publicado no dia da proclamação do novo monarca, El País exortou o rei a assumir uma atitude pró-ativa, ainda que dentro de seus limites constitucionais. "Em vez de encastelar-se cada uma em suas posições, tem de se aplicar em reconstruir a vida econômica e social, abrir as pontes e restabelecer os consensos." / COM REUTERS

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