EFE|EPA|ETIENNE LAURENT
EFE|EPA|ETIENNE LAURENT

Desafio de Paris é saber quem combater

Radicalização e criação de células terroristas ocorrem em prisões, em reuniões informais ou mesmo pela internet

Jamil Chade, ENVIADO ESPECIALCOURCOURRONE, FRANÇA, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2015 | 07h00

A França está em guerra e mobilizou 115 mil soldados, policiais e agentes do serviço secreto para proteger sua população, na maior operação desde a Guerra da Argélia. Mas, entre os policiais que realizam as rondas nas periferias das cidades, a perguntas que se fazem é clara: contra quem? E onde?

Nos últimos dois dias, as forças de segurança cumpriram mais de 300 mandados de busca e prisão, no esforço de desmantelar potenciais células terroristas e, acima de tudo, mandar um recado de que decidiram agir. Nas periferias das grandes cidades, ruas foram esvaziadas e armas, apreendidas.

Mas, segundos imãs, políticos, assistentes sociais e até parentes de jovens radicais consultados pela reportagem, o grande desafio é que a ameaça é difusa, sofisticada e fora das mesquitas. Ela ocorre, segundo o Estado apurou, na prisão, nas redes do narcotráfico, em reuniões informais e pela internet. “O xeque Google é muito poderoso”, ironiza Karin Ben Ayat, vice-presidente da Associação Muçulmana de Lucé, cidade de onde teria partido um dos terroristas dos ataques em Paris.

A França tem 10 mil pessoas na lista de “potencialmente perigosos”. Apenas o trabalho de monitorar cada uma delas já seria um desafio. Mas informações coletadas pela ONU apontam que 30 mil combatentes estrangeiros foram para a Síria, representando séria ameaça quando retornarem para a Europa.

Na tentativa de desativar futuras ameaças, operações em diversas cidades francesas passaram a visar não apenas aos ataques da semana passada, mas potenciais células terroristas.

Nos bairros de periferia de Paris visitados pelo Estado, a varredura tem causado tensão. Em Bobigny, a bandeira francesa está a meio mastro na sede da prefeitura. No município, a 9 quilômetros do centro de Paris e com 50 mil habitantes, as construções são em grande parte ocupadas por imigrantes. A taxa de desemprego é bem superior à do restante do país.

Foi ali que um dos terroristas, Ibrahim Abdeslam, alugou um apartamento dias antes do ataque. Segundo as investigações, um dos carros usados nos atentados também partiu dali.

O ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, prometeu fechar todas as mesquitas que tenham cunho radical e vai propor que todos os imãs façam suas pregações em francês, não em árabe. A proposta, pelo menos em Bobigny, é motivo de piada. “O governo vai fechar o Google então?”, questionou um funcionário de uma das sete mesquitas.

Em Lucé, o responsável pela mesquita local insiste que o processo de radicalização não ocorre nas salas de culto e aponta para uma câmera no teto. “Você está vendo aqui? Essa câmera fica ligada 24 horas por dia e é vista pela polícia. Qualquer coisa que ocorre aqui é de conhecimento da polícia. Não há como pregar uma radicalização hoje nos cultos”, disse.

O prefeito de Chartre, Jean Claude Gorges, confirmou que hoje as mesquitas são “totalmente vigiadas”. “Assim que vemos algo de estranho, informamos o serviço de inteligência.”

Em Courcourrone, cidade a 26 quilômetros de Paris onde residia a família de um dos terroristas, Ismael Mostafai, a população também insiste que não está de acordo com a onda de radicalização. Mas admite que as “tentações” são reais. “A vida é muito difícil para quem mora aqui”, contou ao ''Estado Amin Hussein, um assistente social que trabalha numa associação local de vizinhos. “Os jovens se sentem marginalizados, mesmo quando não têm problemas com a polícia”, disse.

A “vida difícil”, segundo ele, começa a se transformar em radicalismo, mesmo entre aqueles com trabalho. Samy Amimour, um dos terroristas, era motorista de ônibus do serviço de transporte público de Paris. A RATP, empresa de transporte público, admitiu que “dezenas” de seus funcionários passaram a ser fichados nos últimos anos como “potencialmente perigosos”:

Num centro comercial do local, a ronda do Exército entre filhos de imigrantes – muitos deles desempregados - deixa um clima pesado no ar, transformado em surreal diante da música de Natal que soa de forma incessante nos auto-falantes do local.

Alguns dos moradores não escondem que, desde o fim de semana, passaram a ser olhados deforma diferente por outras pessoas nos trens. "Todos nós vamos sofrer", admitiu Hussein.

Na mesquita local, ninguém se dispõe a falar com a reportagem. A versão é sempre a mesma: o imã local é moderado. Mas fontes da polícia explicam que o problema é que a autoridade máxima do local de culto já ruiu há muito tempo.

"Esses são os locais de ponto de partida", disse um dos investigadores, que continuava no bairro. "O imã já perdeu o controle sobre esses jovens, que chegam a se rebelar contra eles, acusando-os de serem cúmplices do Ocidente", disse.

As reuniões entre os mais radicais ocorre em apartamentos fora da mesquita. "São garotos sem destino, sem identidade, jogados nas periferias pelo Estado", disse Hussein. "São presas fáceis."

O esquema de sedução, porém, é sofisticado. "Trata-se de um processo homeopático", disse Gorges, prefeito de Chartre.

"Em Courcourrone, os radicais oferecem primeiro um sentido de identidade, os garotos passam a fazer parte de um grupo, na maioria das vezes criminoso. Vendem drogas e outros estão envolvidos com tráfico de armas", explicou o assistente social.

Mas esse é apenas o primeiro passo. Sites na internet são sugeridos aos jovens para que eles conheçam  "o caminho". Para as autoridades, esses sites são organizados por radicais para convencer os jovens a assumir que, acima de tudo, sua identidade é muçulmana, acima de qualquer passaporte.

Outro sinal de radicalização é o rompimento com a família. "Eles são ensinados a ver que nem seus pais são suficientemente muçulmanos", disse um dos investigadores. A família natural, assim, é trocada por uma "família jihadista". Não por acaso, a palavra usada pelos terroristas entre si é "irmão".

Prisão.Outro foco de radicalização são as prisões e foi justamente uma medida tomada pelas autoridades que, ironicamente, abriu as portas para isso. Há dois anos, o governo decidiu isolar nas prisões os mais radicais, deixando-os nos mesmos blocos. O objetivo era impedir que eles convencessem os demais detentos a se unir.

Um informe encomendado neste ano pelo governo comprovou o erro. "Há o risco de que estejamos criando uma bomba-relógio", apontou o documento. "Agrupar os radicais na prática facilita a organização do proselitismo." Ao passar a se reunir diariamente, o grupo trocaria informações, práticas e sairiam, anos depois, ainda mais instruídos para radicalizar seus companheiros.

Diante desse cenário, os investigadores admitem que a guerra será "difícil e longa". Segundo eles, o que esse sistema criou foi um exército silencioso, com grupos operativos pequenos, flexíveis, multinacionais e sem nada a perder.

 

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