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Desafio de reformar a OEA

Luis Almagro, o novo secretário geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), é um diplomata honrado. Ex-chanceler do Uruguai, já conduziu a embaixada uruguaia em Pequim nos anos vorazes do dragão da Ásia.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

29 Março 2015 | 02h02

Se Almagro tem o estofo para conduzir os ardores latino-americanos, é outra história. Aos 69 anos, a OEA é uma senhora desamparada, desprestigiada na própria casa e lapidada pelos supostos defensores.

Quem diz é o ex-embaixador mexicano Jorge Guajardo. "Luis Almagro é um homem muito inteligente e muito cauteloso", me disse. "A América Latina precisa é de um homem ousado."

Embora em plena primavera eleitoral, a democracia latino-americana sofre de anemia. Por uma charge que desagradou ao presidente equatoriano, Rafael Correa, um cartunista pode ir à cadeia. A premiada jornalista mexicana Carmen Aristegui foi demitida após expor escândalos de corrupção no governo do presidente Enrique Peña Nieto.

Quem faz escola entre os autócratas é o venezuelano Nicolas Maduro, que converteu os manifestantes em meliantes e já mandou para a cadeia a cúpula da oposição.

Entre calote e indiferença, a OEA definha. Destaque para o Brasil, que deve ao grupo R$8,1 milhões e está sem embaixador na casa há cinco anos. Em 2012, a Venezuela - US$3,34 milhões no vermelho - renunciou à Convenção Americana de Direitos Humanos.

O decano da diplomacia latina perdeu seu lustre para os novos grêmios como Unasul, Celac e Alba - uma sopinha de letrinhas à bolivariana, dedicada a marcar posição contra os Estados Unidos. A maior vítima é o compromisso com a liberdade, garantia contratual desde 2001, quando a OEA lançou a Carta Interamericana da Democracia.

Mas que democracia? Com a ascensão de Hugo Chávez, em 1999, a América Latina envergou o eixo conceitual. Para os bolivarianos, o que conta é o resultado das urnas. Ao vencedor, a carta branca: para lotear os tribunais, retalhar as constituições e editar os mapas distritais para favorecer a agenda oficiais. O único tabu é derrubar o mandatário eleito. Se o mesmo passa a desbastar as instituições, amordaçar a imprensa e encarcerar dissidentes, paciência.

Quem teve as regalias da Carta Democrática foi o presidente hondurenho Manuel Zelaya, amigo de Hugo Chávez, derrubado do poder a ponta de fuzil em 2009 após tentar burlar a Constituição e se agarrar ao poder além do prazo. A OEA, corretamente, mobilizou-se.

E o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, preso em fevereiro pelo serviço bolivariano de inteligência? Um mero sub-líder nacional, não contou com a guarida - nem mesmo o mais brando chiado - dos companheiros continentais.

Pois a ideologia é que tempera a solidariedade latino-americana. Para o ex-diplomata boliviano, Jaime Aparício Otero, tudo não passa de uma ação entre camaradas. "Os líderes calam-se, pois todos têm problemas com a dissidência e temem ser o próximo alvo", disse Aparício.

Quem tentou sacudir esse eixo de cumplicidade foi o presidente americano, Barack Obama, que no início do ano distendeu as relações diplomáticas com Cuba. Surpreendeu a todos e ainda puxou o tapete daqueles que brandiam o embargo gringo à ilha como para-raio para desviar atenções dos atentados caseiros à liberdade.

Obama só tropeçou quando tirou os vistos de sete "boligarcas" da alta roda, que, de tanto pisotear os direitos humanos e roubarem o erário, segundo a Casa Branca, representariam uma ameaça à própria segurança nacional americana.

Exagero? Sem dúvida. A Venezuela mal consegue suprir os supermercados, muito menos armar uma invasão à Flórida. Mas foi uma bola alta para Maduro, que ganhou loas dos companheiros latinos, e ainda tumultuou as negociações entre Havana e Washington.

Não se sabe o que ocorrerá na Cidade de Panamá, mas há quem aposte em uma missão renovadora para a OEA poder perder a boina.

É COLABORADOR DA 'BLOOMBERG VIEW' E COLUNISTA DO 'ESTADO'

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