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Desafio de Theresa May é conduzir saída da UE

Há quase 100 dias no cargo, premiê britânica precisa administrar as consequências políticas e econômicas da nova configuração do bloco

Jéssica Otoboni, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2016 | 05h00

Perto de completar 100 dias no cargo, a primeira-ministra britânica, Theresa May, tem pela frente a tarefa árdua de administrar a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) e lidar com os desafios que a nova configuração trará. Ela já garantiu que não voltará atrás na decisão, os britânicos terão de abandonar o bloco e a saída será bem sucedida. Ainda assim, organizar esse processo não será fácil.

Nos primeiros meses de sua gestão, May destacou-se por conseguir captar parte da linguagem da esquerda britânica sobre as desigualdades que existem quanto a salários, classes sociais, etnias e gêneros. Segundo Duncan Kelly, especialista em política e estudos internacionais da Universidade Cambridge, ela tem um estilo diferente de administração que mescla equilíbrio e trabalho duro.

Desde o dia em que assumiu o cargo, May lida com as consequências do resultado do referendo de 23 de junho, quando os britânicos votaram a favor do Brexit – a saída do Reino Unido da UE. 

O especialista diz que a nova configuração europeia tem originado algumas fissuras políticas no Reino Unido, como transformações nos gabinetes, volatilidade da opinião pública sobre as chances de o país voltar a crescer, e divisões no Partido Trabalhista, causadas pela perda de confiança no líder Jeremy Corbyn.

O grupo político favorável à saída da UE defendia a ideia de que o Reino Unido precisava e poderia retomar o controle de sua política e economia. Mas Kelly ressalta que “a única coisa que o efeito emocional da campanha pelo Brexit mostrou é que o Reino Unido é profundamente dividido”.

Segundo reportagem do jornal inglês Sunday Times, a saída de fato da UE pode ser adiada até o final de 2019. Ainda não se sabe quando será invocado o Artigo 50, que dará início à contagem do prazo de dois anos para o país deixar o bloco. May já afirmou que não estimulará negociações do Brexit este ano e ministros disseram que o Artigo 50 não deve ser acionado no início de 2017 em razão da situação “caótica” do poder público, informou o jornal.

Enquanto isso, a primeira-ministra tenta ganhar tempo para negociar estratégias e lidar com as demais consequências políticas e econômicas do Brexit. Ela busca acordos comerciais com alguns líderes mundiais, mas parte deles já indicou que condicionarão tais pactos. 

A chanceler alemã, Angela Merkel, disse que os britânicos não podem escolher apenas partes da UE que lhes convêm. Ou seja, se quiserem participar do mercado comum, precisam aceitar a livre circulação de pessoas.

Desafios. Theresa May assumiu o cargo em julho após a renúncia de David Cameron e apesar de ambos compartilharem as dificuldades de se negociar com as alas pragmáticas do Partido Conservador, já é possível destacar alguns pontos em comum entre eles.

“O maior contraste entre a gestão de Cameron e de May é que ela tem traçado um caminho corajoso e arriscado ao colocar (o ministro das Relações Exteriores do Reino Unido), Boris Johnson, em um dos principais postos do Estado”, afirma Kelly. Ele explica que o político terá de trabalhar muito para ser levado a sério em razão dos comentários ácidos que faz sobre certas pessoas e culturas.

Uma das tarefas da premiê está em manter o ministro dentro do partido, mas de maneira que ele não a desafie. Kelly diz ainda que, diferente de Cameron, May encontrou uma rota pela qual ambos podem seguir. “Ela fez muito para tentar se distanciar do legado de Cameron e surgir como uma líder com nova visão, mas as práticas e os desafios de ambos são similares.”

Para Kelly, a população britânica espera que a premiê inicie o processo de saída da UE nos próximos 16 meses, mantenha relações fortes com a chanceler alemã, Angela Merkel, e com o presidente francês, François Hollande, ao mesmo tempo em que tenta “restaurar a fé na política e nos políticos” britânicos. 

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