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Desafio pérfido e sorrateiro

Alguns homens vestidos com macacões cor de laranja caminham por uma praia da Líbia. Seus guardas os obrigam a se ajoelhar enquanto desembainham seus sabres e os corpos decapitados desmoronam. A areia se cobre de vermelho. Esses mártires são egípcios coptas, ou seja, cristãos. Os algozes são guerreiros do Estado Islâmico, o califado edificado pelo Islã radical no norte do Iraque e na Síria.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2015 | 02h02

A cena chocante nos faz lembrar que os jihadistas do EI aplicam uma estratégia indecifrável. Comumente, as potências sanguinárias não se vangloriam de seus crimes. Elas cometem atos imundos, mas não os transformam em algo risível. Em Katyn, em 1940, os soviéticos massacraram milhares de oficiais poloneses e garantiram que a matança fora cometida pelos nazistas.

Os líderes do EI agem ao contrário. Não só se comportam como bárbaros, como também se gabam de sua barbárie. O EI faz dessa perversão uma arma absoluta, que busca dois efeitos.

Por um lado, o espetáculo da ignomínia hipnotiza os adversários, os deixa estupefatos. Um pouco como uma fera baba, eructa e ruge, a fim de paralisar de medo o coelho que quer devorar.

Por outro lado, a crueza e a baixeza que o EI põe nessa cena exerce uma misteriosa sedução sobre homens à deriva que se sentem fascinados pelo espetáculo do sangue, do cinismo e da morte. É assim que o EI atrai milhares de voluntários do mundo inteiro.

O EI, seus sucessos e sua barbárie constituem, desse modo, um dos desafios mais terríveis que o mundo civilizado deve enfrentar. É um desafio sob muitas formas. É mais sorrateiro e mais pérfido do que pode parecer à primeira vista. Os criminosos escandalosos e pegajosos do EI não se contentam em assassinar a inocência. Dão aos príncipes e aos ditadores árabes um presente de enorme valor: excelentes pretextos para oprimir o seu povo.

Repressão. É o que acontece no caso do Egito. Como deixar de nos sentirmos solidários? E repare-se que o Egito não é absolutamente um cordeiro. Militantes leigos são atirados à prisão perpétua. Centenas de pessoas são condenadas à morte por pertencerem a grupos islamistas - termo vago que permite ao marechal Sissi atacar ao mesmo tempo os jihadistas do EI e também os islamistas moderados. A polícia egípcia prende estudantes, jornalistas sob a acusação de propagarem notícias falsas. O medo se espalha.

Conclusão: a ameaça que os assassinos do EI fazem pesar sobre o Egito permite ao marechal Sissi golpear com mão de ferro seu próprio país. Permite também à França vender ao marechal Sissi escudo contra as brigadas de assassinos do EI. São 24 aviões Rafale e todo tipo de pequenos artefatos de morte! Sob formas diferentes, o mesmo mecanismo funciona praticamente em todo o Oriente Médio.

A Arábia Saudita é tida em grande conta no Ocidente não apenas por seu petróleo, como também por constituir um freio (teórico) para as façanhas da jihad. Entretanto, a Arábia padece sob um dos piores regimes do planeta, com uma política interna repressiva caricatural.

O caso mais espetacular é o da Síria, um país que faz sua "revolução democrática" na esteira da Primavera Árabe. Mas o presidente de Damasco, Bashar Assad, responde com tanques e canhões, bombardeia os democratas, destrói seu próprio país, empilha os mortos.

Entretanto, à medida que os terroristas da Al-Qaeda, inicialmente, depois os do EI, se aproximam da Síria, a figura de Assad se metamorfoseia. Ele, que é a encarnação do diabo, de repente se torna, senão o Bom Deus: o único capaz de impedir que a Síria caia nas mãos sangrentas do EI.

Estranhas viagens geopolíticas nessa dolorosa região do mundo: regimes que ontem eram denunciados pelo Ocidente como regimes do terror, conseguem aderir, sem abrandar em nenhuma vírgula suas condutas, ao campo do Ocidente, sob o pretexto da luta contra o terror. / Tradução de Anna Capovilla

* É correspondente em Paris

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