Desafios da China

Líderes chineses parecem dispostos a enfrentar problemas e deixar de responder às pressões com estímulo de crédito

Fareed Zakaria*, O Estado de S.Paulo - The Washington Post

11 de novembro de 2013 | 02h07

"Estamos profundamente impressionados com o contraste entre Pequim e Washington", comentou George Yeo, ex-ministro do Exterior de Cingapura. Ele se referia à qualidade da administração das duas capitais - particularmente, à sensação geral na Ásia de que os EUA perderam sua capacidade de implementar com competência políticas públicas (basta ver o Iraque, a reforma da Saúde). Pequim, ao contrário, vem planejando de maneira cuidadosa e sistemática uma série de reformas que provavelmente tornará a China a maior economia mundial dentro de dez anos.

O contraste é ainda mais impressionante se considerarmos o fato de que a China se depara com imensos desafios e depende de enormes reformas econômicas, políticas e sociais para enfrentar a "armadilha da renda média", que afetou muitos países em desenvolvimento antes em grande expansão. Os EUA, por sua vez, continuam sendo a economia mais inovadora do mundo, com uma sociedade dinâmica e crescente. O país precisa apenas de alguma estratégia de sentido prático para solucionar uma série de questões - como a infraestrutura, programas assistenciais e imigração. E, no entanto, é difícil prever um progresso em alguma dessas frentes nos próximos anos em Washington.

Yeo e eu fizemos parte de um grupo de visitantes convidados a ir para a China pelo Instituto Berggruen de especialistas globais, para participar de reuniões com os principais líderes chineses, incluindo o presidente Xi Jinping. Os chineses mostraram-se mais confiantes e à vontade do que em qualquer outro momento nos mais de 20 anos durante os quais venho visitando o país. No passado, eles falavam dos pontos vulneráveis e dos problemas da China, e comentavam sempre o seu atraso em relação aos EUA. Ouvi muito pouco disso nessa visita.

Hoje, a tarefa é imensa, mas não maior do que era no passado. As primeiras reformas da China voltadas para o mercado foram anunciadas pelo líder Deng Xiaoping, em 1978. Imagine-se criar uma economia de mercado a partir do zero e encontrar quem a administrasse quando todo o sistema de ensino universitário do país permanecera fechado por uma inteira década!

A segunda rodada de reformas, a da globalização de uma das economias mais fechadas do mundo, foi anunciada em 1993 pelo presidente Jiang Zemin. A Reunião Plenária do Comitê Central do Partido Comunista, que se iniciou ontem, assinalará o terceiro round de reformas na China moderna.

Nos últimos anos, Pequim hesitou. O governo sabia o que devia fazer, mas decidiu adiar os problemas de difícil solução do ponto de vista político. E optou por usar o crédito barato como estímulo para impulsionar a economia toda vez que o crescimento fraquejava. Mas os líderes se deram conta disso e, agora, parecem determinados a manter as promessas. "Se flexibilizarmos o crédito e expandirmos o déficit fiscal, será como diz o provérbio: colocar mais lenha para apagar o fogo", disse ao grupo o premiê Li Keqiang.

A liderança chinesa prometeu reformas de mercado "sem precedentes", "abrangentes", "econômicas, sociais e políticas". Teremos de esperar para ver o que isso significa, mas, evidentemente, não significará nenhum passo rumo à democracia. Provavelmente, implicará em mudanças administrativas para tornar a burocracia mais eficiente, eficaz e honesta.

Até o momento, o país se moveu na direção oposta em termos políticos, limitando a internet numa campanha maoista contra o dissenso. Um participante descreveu esse programa como uma estratégia que "vai para esquerda, em termos políticos, para poder ir para direita em termos econômicos". Segundo ele, isso reflete a abordagem de Deng Xiaoping, resumida na piada, segundo a qual, certa vez, ele mandou o motorista dar o sinal de que viraria à esquerda, para virar à direita.

Muitos estão convencidos de que a China administrará o processo com grande sucesso. "A elite chinesa está plenamente consciente do aumento das tensões e ela responde permitindo uma considerável abertura na sociedade e na internet. Mas continua intervindo para impedir que as tensões escapem do controle. A elite é composta de engenheiros e, em qualquer sistema, você precisa de certo atrito para obter uma desaceleração. Um excesso de atrito pararia a máquina, mas uma redução excessiva provocaria uma instabilidade sistêmica", disse Yeo.

Vale nos perguntar se um sistema político pode ser administrado como uma máquina, repleta de peças mecânicas. Afinal, uma nação é feita de pessoas, que podem ser movidas por paixões, esperanças, temores ou ira. Administrar esses sentimentos será um difícil desafio até mesmo para os engenheiros mais experientes.

*Fareed Zakaria é colunista.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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