Assessoria de Jair Bolsonaro / AP
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Desafios regionais

Para que relação seja produtiva, Casa Branca deve levar a sério o Palácio do Planalto

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2018 | 02h03

O gesto do presidente eleito Jair Bolsonaro de bater continência para o chefe do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, não deve ser supervalorizado nem ignorado. Gestos importam. Enquanto as palavras passam por um cálculo intelectual, os gestos estão mais diretamente relacionados à esfera emocional. Por isso, tendem a ser considerados mais espontâneos e verdadeiros.

A continência teve um ar mais descontraído do que formal, assim como o ambiente do encontro de uma hora, na casa do presidente eleito. Bolton, por sinal, não retribuiu, até porque não é militar. Durante a Guerra do Vietnã, ele se alistou na Guarda Nacional e depois entrou para a reserva do Exército – dois artifícios usados na época para evitar a convocação.

Com a continência, Bolsonaro sublinhou o fato de que um dos principais temas do encontro era a segurança na região – principalmente, a crise na Venezuela. E de que ali estava reunida, como observaria Bolton mais tarde, “a equipe de segurança nacional” do presidente eleito: os futuros ministros da Defesa, do Gabinete de Segurança Institucional e das Relações Exteriores.

Depois da reunião, Bolsonaro enfatizou: “Vai ser difícil tirar a Venezuela da situação em que se encontra, mas nós aqui faremos o possível pelas vias legais e pacíficas”. Entretanto, há precedentes, tanto da parte do governo de Donald Trump quanto do entorno do presidente eleito, incluindo seu filho Eduardo Bolsonaro, deputado federal, de cogitar usar a força para apear os chavistas do poder.

Livrar os venezuelanos da repressão autoritária e do flagelo humanitário a que estão submetidos é um desejo de todo observador que tenha alguma sensibilidade humana e não esteja cego pela ideologia. E a Venezuela é, sem dúvida, o principal fator de instabilidade da região. 

Mas alimentar as suspeitas de que outros países estejam tramando uma intervenção militar reforça a posição dos chavistas, que justificam sua inépcia econômica e brutalidade contra a oposição argumentando que a Venezuela é alvo de “guerra econômica” e “imperialismo”.

Os oposicionistas venezuelanos pedem que a comunidade internacional pressione politicamente o regime e adote sanções individuais contra seus dirigentes – coisa que o Brasil tem recusado, e deve fazer. Mas não lance mão de embargo comercial nem muito menos fale em ação militar.

Durante a semana, Eduardo Bolsonaro foi recebido por pessoas influentes no governo Trump, incluindo seu genro e conselheiro Jared Kushner, os senadores republicanos Ted Cruz e Marco Rubio e subsecretários de Estado e do Tesouro. Em outro gesto significativo, o deputado se deixou fotografar com um boné da campanha da reeleição de Trump em 2020, e os dizeres “América Primeiro”.

O futuro governo brasileiro não pode esquecer que os democratas recuperaram a maioria na Câmara dos Deputados e disputarão a eleição presidencial em 2020. Em política externa, aproximar-se de um país não implica aliar-se ao governo local. O PT cometeu o mesmo erro, em relação à Venezuela.

Thomas Shannon, ex-embaixador americano em Brasília, reconheceu na quinta-feira, durante seminário no Instituto FHC, que Trump dá importância à chance de estreitar a cooperação com o Brasil. O fato de Bolton ter passado pelo Rio para se encontrar com Bolsonaro, a caminho da reunião do G-20 em Buenos Aires, é prova disso.

Além da Venezuela, outra frente importante é a pressão para que a China obedeça às regras do comércio e da propriedade intelectual. Há interesses comuns e uma pauta bilateral carregada de questões a serem negociadas, no comércio e nos investimentos. Para que essa aproximação seja produtiva, é preciso que a Casa Branca valorize e leve a sério o Palácio do Planalto. E nisso os gestos contarão tanto quanto as palavras.

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