Desânimo de eleitores cresce nos EUA

A menos de um mês das eleições legislativas que devem fortalecer oposição no Congresso, cidadãos expressam insatisfação e decepção

ASHLEY PARKER , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2014 | 02h04

A menos de um mês das eleições legislativas que devem dar aos republicanos a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, o desânimo parece ter tomado conta dos eleitores americanos, especialmente dos democratas, muito frustrados com o desempenho do presidente Barack Obama.

Pesquisa do instituto Gallup, divulgada na quinta-feira, mostra que apenas 39% dos americanos aprovam o desempenho de Obama na Casa Branca - 56% consideram ruim o trabalho do presidente, que muito provavelmente terá de enfrentar em seus dois últimos anos de mandato a oposição republicana em maioria nas duas Casas do Congresso.

Hoje, os democratas têm 199 deputados. Os republicanos, 233 - três cadeiras estão vacantes. De acordo com as mais recentes estimativas, os republicanos têm praticamente a eleição assegurada de 230 deputados, bem mais do que a maioria de 218. Os democratas têm 188 - 17 disputas ainda estão indefinidas.

No Senado, a situação é ainda pior para o partido do presidente. Atualmente, os democratas têm maioria. São 53 senadores do Partido Democrata e 2 independentes, que costumam votar com o governo. Os republicanos são minoria: 45 senadores. Agora, pesquisas apontam um avanço da oposição. Os republicanos têm praticamente garantidos 52 senadores. Os democratas, 47 - além de 1 senador independente, que votaria com o partido de Obama.

Descrença. Apoiando-se em sua bengala, Lee Bullied, enfermeira aposentada no Estado da Pensilvânia, democrata de longa data, lamentou a fase atual. "Não há nada aqui. Não temos indústria. Não existe nenhum lugar para trabalhar." O desgaste é compartilhado por muitos que tentam superar a recessão.

Uma viagem de cinco dias por sete Estados, seguindo pela National Road - construída na primeira metade do século 19 e apelidada de "Principal Rua da América" - dá alguns instantâneos da inquietação dos eleitores, que parecem abatidos e céticos quanto ao futuro dos EUA.

Muitos entrevistados manifestaram irritação com Obama, que consideram um "fracassado", e disseram ter visto poucas mudanças e manter pouca esperança. Mesmo os que apoiam o presidente admitiram um desapontamento - embora a maioria culpe a política partidária herdado por ele e afirmem que "ele está fazendo o melhor que pode".

O sentimento desses eleitores com relação ao Congresso também foram extremamente negativos. Danny Swan, de 27 anos, dona de uma banca de verduras, afirmou que todos os políticos em Washington "representam um papel" e estão ocupados em "encenar um show". Eles ignoram, segundo ela, comunidades como a do Vale do Rio Ohio. "Quero ver nossos políticos ficarem um tempo conosco para saberem porque nossa plantação de tomates não foi adiante este ano. Ou porque a gráfica local despediu 12 pessoas."

Ambiguidade. No entanto, por mais desconectados que os eleitores se sintam do governo, a relação com Washington é ambígua. Muitos, como Swan, culpam os políticos pela situação econômica, mas desejam uma ajuda do governo. "Trabalho seis dias por semana, 9 horas por dia e ainda tenho dificuldades para pagar minhas contas e garantir o sustento do meu filho", disse Janette Rideout, de 38 anos, que dirige uma loja de roupas. "Não acho que eles entendam isto, porque têm dinheiro. E, quando você tem dinheiro, a vida se torna mais simples."

Críticas. De saída para um passeio de motocicleta em Terre Haute, Rick Poole, de 56 anos, disse que, como motorista de caminhão no campo de petróleo de Dakota do Norte, ele se sente uma pessoa de sorte por ter um emprego estável. No entanto, ele diz que os políticos em Washington vivem em uma bolha e não sabem o que é trabalhar para ganhar um salário mínimo de US$ 8 ou US$ 9 por hora e ainda ter de sustentar uma família. "Não dá", afirmou. "Se alguém tem de trabalhar 60, 70, 80 horas por semana para apenas sobreviver, que tipo de vida é esta?"

Garçonete em St. Clairsville, Ohio, Diana Warren, de 50 anos, sabe que os ataques de 11 de setembro de 2001 trouxeram consequências. Hoje, porém, 13 anos depois da queda do World Trade Center, ela acha que Obama esteja "muito ocupado com questões estrangeiras e política externa". "Sei que alguns países necessitam de ajuda, mas não consigo entender porque estamos enviando bilhões de dólares para lá quando aqui estão cortando empregos", disse.

Essas opiniões foram repetidas exaustivamente ao longo da National Road. "Venham até aqui e depois se preocupem com o resto", disse Weldon Clark, estudante de 19 anos da Universidade de Indiana. Um policial de Ohio, passando por Maryland, afirmou que o dinheiro e os soldados que o presidente enviou para o Oriente Médio "não nos deixam mais seguros". Uma mulher de Saint Louis, saindo para um passeio após o jantar, disse que chegou a hora de aceitar que "os dias em que os EUA eram uma superpotência acabaram".

Seis anos de presidência Obama e a litania de queixas contra ele aumenta cada vez mais. Para uma aposentada que mora na região central de Columbus, Ohio, "ele é nulo". "Obama é ineficiente e não está governando", disse. Para um optometrista, que fazia uma pausa do trabalho em um restaurante da cadeia Dairy Queen, em Terre Haute, "Obama é horrível". "Ele é medíocre. Basicamente, está permitindo o avanço do socialismo".

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