Desarmamento do IRA põe pressão sobre o ETA

O grupo separatista basco ETA sempre se comparou e imitou a estratégia e o caráter do Exército Republicano Irlandês (IRA) em seu empenho de recorrer às armas para conseguir a independência. Mas os espanhóis não acreditam que o bando armado de seu país imite o exemplo do movimento da Irlanda do Norte e deponha as armas. "Seria ideal que o fizessem", disse o estudante de direito madrileno Francisco de la Torre, de 25 anos. "Mas os recentes atentados (do ETA) não dão indícios de que eles sequer tenham pensado nisso". A decisão anunciada na terça-feira pelo IRA deixou o ETA como o único grupo na Europa Ocidental a manter a luta armada em defesa de seu ideal político, e suscitou na Espanha pedidos para que os militantes etarras imitem os irlandeses. "Espero que outros, principalmente o ETA (Pátria Basca e Liberdade, em língua basca), façam o mesmo", disse aos jornalistas o ministro do Interior, Mariano Rajoy, ressaltando que "o nível de autogestão desfrutado no País Basco é muito superior ao da Irlanda do Norte". A decisão do IRA foi recebida com entusiasmo na Espanha, especialmente pelos meios de comunicação, tanto a imprensa escrita como o rádio e a televisão. Alguns supõem que os ataques de 11 de setembro contra Nova York e Washington tenham pressionado o IRA a anunciar seu desarmamento. Os analistas sugeriram que dentro de algumas semanas o ETA poderia ver-se obrigado a imitar seus mentores no uso das bombas e das armas. Embora o grupo basco não tenha assassinado ninguém desde julho, dois recentes atentados com veículos carregados de explosivos indicam que o ETA prossegue em sua estratégia da luta armada. "Os ataques nos EUA provocaram mudanças em todos, incluindo, felizmente, o IRA", disse Teresa Llobet, uma professora madrilena de 62 anos. "Se Deus quiser, isto poderá acontecer aqui também, mas há muita revolta pelo conflito basco e poucas pessoas estão dispostas a perdoar e esquecer". O ex-ministro do interior Jaime Mayor Oreja, que é basco, não se mostrou otimista. "O ETA não segue o exemplo e o caminho do IRA", disse Mayor Oreja à emissora de rádio Onda Cero, e prognosticou "mais dor e sofrimento". Joseba Alvarez, porta-voz do Herri Batasuna, o braço político do ETA e que desempenha um papel similar ao do Sinn Fein irlandês de Gerry Adams, não tentou dissipar os temores de Mayor Oreja. "A notícia é positiva e demonstra que a negociação e o diálogo são necessários quando se deseja a paz", disse Alvarez, mas esclareceu que não ocorrerá o mesmo na Espanha enquanto o governo central continuar com a "repressão" em lugar da negociação. "Com a decisão do IRA de depor as armas, a União Européia fica agora com apenas uma organização terrorista que sempre se considerou irmã dos Exército Republicano Irlandês: o ETA", disse em Madri o jornal El Mundo, em um editorial. Mas o jornal receou expressar um otimismo excessivo ao destacar que, "ao contrário do ocorrido na Irlanda", no conflito basco "os partidários dos tiros na nuca sempre se sobrepuseram aos que, embora timidamente, se inclinaram a favor de uma solução política".

Agencia Estado,

24 Outubro 2001 | 14h47

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