Desastre choca país ainda atordoado pelo 11 de setembro

A tendência dos americanos de encarar a adversidade como desafio e buscar nos desastres mensagens positivas de unidade, perseverança epromessas de triunfo futuro foi exibida mais uma vez depois da perda do ônibus espacial Columbia, na manhã deste sábado.Poucas horas depois da tragédia, o presidente George W. Bush falou ao país pela televisão para homenagear os sete austronautas que morreram e dizer que ?a causa pela qual eles morreram continuará?.O desastre do Columbia chocou um país ainda atordoado pelo mais devastador ataque terrorista de sua história, em 11 de setembro de 2001, e dividido e atormentado por vários problemas imediatos: uma economia em estado letárgico, que não está livre do risco de deflação, a probabilidade de uma nova guerra no Golfo Pérsico, uma confrontação latente com a Coréia do Norte e a ameaça permanente de novos ataquesterroristas, que é real e alimenta um clima de ansiedade e medo que o governoultraconservador de Bush usa para justificar políticas questionáveis que adota, em nomeda preservação da segurança.Não é de supreender, assim, que a possibilidade de o desastre do Columbia ter sido provocado por um ato terrorista tenha sido aventada nas horas seguintes à perda da nave espacial e alimentado teorias conspiratórias, embora ela não exista, nemremotamente.John Glenn, o ex- astronauta e ex-senador que 41 anos atrás tornou-se o primeiro americano a completar completar um vôo em torno da Terra, previu neste domingo que, passado o choque, o programa espacial americano continuará. Como, com que mudanças, em que ritmo, é a grande questão que será debatida nas próximas semanas e meses pela imprensa e em audiências públicas no Congresso, depois que as investigações iniciadas pelos engenheiros da Nasa e por uma comissão externa de especialistas produzirem as primeiras explicações para o desastre.A exemplo do que aconteceu após a explosão do ônibus espacial Challenger, 17 anos atrás, o desastre do Columbia pode suscitar perguntas sobre a competência da Nasa. No caso do Challenger, a imagem positiva da agência espacial junto à opinião público ficou manchada depois que se revelou que o problema que provocou a perda danave minutos depois do lançamento ? a falha, sob baixas temperaturas, dos anéis de borracha que fazem a vedação entre os estágios dos foguetes auxiliares de propulsão ? era conhecido e já havia provocado discussões internas.Inevitavelmente, surgirão perguntas sobre o custo, o risco e a utilidade de um transportador espacial reutilizável em comparação com as cápsulas descartáveis empregadas nas primeiras duas décadas do programa espacial.Os mais críticos questionarão a própria continuação do programa espacial tripulado, sob o argumento de que este serve apenas para gerarpublicidade e garantir o apoio da opinião pública e a aprovação pelo Congresso de recursos à exploração espacial, uma atividade que, segundo esses críticos, poderia ser realizada com os mesmos resultados e a um preço bem menor usando-se robôs relativamente simples e já disponíveis.Com os vôos dos dois ônibus espaciais remanescentes suspensos, até que sedescubra a causa - ou causas - do acidente, fontes da Nasa e especialistas no assuntodisseram que, de imediato, a destruição do Columbia provocará o adiamento de umanova fase de expansão da Estação Espacial Internacional, que os Estados Unidos estãomontando em colaboração com 15 países parceiros, entre eles o Brasil.Para o governo brasileiro, que está atrasado nos pagamentos de sua contribuição para a Estação Espacial, o adiamento é uma chance para acertar as contas e garantir o lugar do primeiro astronauta brasileiro, o oficial da Força Aérea Marcos Pontes, que está em treinamento em Houston, num futuro vôo do ônibus espacial.VEJA O ESPECIAL

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