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Gilles Lapouge
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Desastre em Trípoli

Em 20 de outubro de 2011, o cruel ditador da Líbia, Muamar Kadafi, foi abatido. O mundo respirou. O terceiro tirano do Norte da África foi derrubado, depois dos ditadores da Tunísia e do Egito. As primaveras árabes tornaram-se uma bela estação. Mas não ficariam apenas ali. Iriam espalhar suas sementes, suas flores e suas belas paisagens em todos os países submetidos ao jugo de ditadores.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2013 | 03h03

Hoje, em que situação encontra-se a Líbia depois de ter sido arrancada das garras de Kadafi? Bem, a Líbia chegou a lugar nenhum. E esse lugar nenhum não é aprazível, mas um desastre.

Há poucos dias, algumas pessoas riram ao saber que o primeiro-ministro da Líbia - a nova Líbia, democrática, feliz e tudo o mais - havia sido sequestrado e libertado logo depois. Na realidade isso não é motivo de riso. É trágico. A imagem de um país em situação de risco. Os indivíduos que sequestraram o premiê eram milicianos. E se o libertaram algumas horas depois não foi por serem acossados pela polícia. Não, foi uma segunda milícia que obrigou a primeira a soltar Ali Zeidan.

Quer dizer que há muitas milícias na Líbia? Sim. São 1,7 mil, para todos os gostos. Defendem diferentes interesses particulares, por exemplo, os da região de Trípoli ou de Benghazi ou de Fezan. Mas cada uma dessas três grandes regiões está dividida em tribos (que eram protegidas por Kadafi). Além disso, existem milícias de traficantes de droga ou de sequestradores ou de chantagistas. E as mais violentas são as milícias islâmicas, bem armadas, numerosas e disciplinadas, que demonstram uma coragem espantosa.

Portanto, está claro que dois anos após o fim da ditadura, o que desapareceu na Líbia foi o próprio Estado líbio. Esse país suscita uma pergunta que poderia enriquecer os tratados de ciência política: o que é melhor, a ditadura ou a anarquia? Sob o comando de Kadafi, a Líbia agonizava porque havia excesso de domínio do Estado. Hoje não há mais Estado e ela continua a definhar. E nessa trajetória delirante o país une-se à Somália, um país sem Estado.

Assim, a escolha será entre duas pragas, a da anarquia ou a da ditadura? Seguramente o desaparecimento do Estado líbio engendrou sofrimento, insegurança e miséria; todos desconfiam de todos; o desaparecimento da polícia permitiu infames massacres de negros em alguns bairros pobres. E uma profusão de armas se espalhou depois dos saques, há dois anos, dos arsenais de Kadafi. As mais poderosas dessas armas (tanques blindados) foram encontradas nas mãos de terroristas no Mali - e a França precisou enfrentá-los há um ano para expulsar os islamistas daquele país.

Enfim, a morte de Kadafi provocou uma catástrofe humanitária: um imenso número de imigrantes deixa portos líbios em direção aos "paraísos europeus". Milícias especializadas enriquecem. Os "passadores" infames amontoam em barcos inseguros multidões de pobres diabos que afluem da África inteira para serem conduzidos para Malta, Chipre ou Itália.

Resultado: dezenas de barcos naufragam. O Mar Mediterrâneo hoje é um túmulo.

E quanto custa esse "paraíso europeu"? Os traficantes cobram por uma viagem até Lampedusa US$ 1 mil por imigrante. Aqueles que chegam à ilha entram num longo pesadelo administrativo. Os outros, centenas, milhares, morrem afogados. Ou seja, a morte está cara nessa temporada. Cobrar US$ 1 mil, eles exageram no preço! / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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