Desastre esvazia eleição na Polônia

Avião levava, além do presidente em campanha para reeleger-se, o principal líder da oposição

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2010 | 00h00

Institucionalmente, a continuidade do Estado polonês está garantida. Mas, politicamente, o acidente abre um vácuo de poder no país. Os dois principais candidatos dos dois principais partidos políticos estavam no avião que caiu ontem na Rússia.

Nas Forças Armadas, o acidente deve acelerar uma transição de gerações no comando que já vinha ocorrendo lentamente. As eleições estavam marcadas o segundo semestre.

Lech Kaczynski seria o candidato do partido conservador Lei e Justiça. Já Jerzy Szmajdzinski seria o candidato da esquerda.

"O que vai ocorrer agora não está claro, já que líderes das duas forças políticas do país desapareceram", afirmou ao Estado a cientista política polonesa, Lena Kolarska Bobinska. A perspectiva é a de que a eleição que será organizada às pressas para junho será silenciosa.

O partido conservador é o que mais sofreu, já que sua cúpula estava no avião. Numa missa celebrada ontem, o arcebispo de Varsóvia, Kazimierz Nycz, declarou que parte da elite política, social e cultural do país havia morrido. Personalidades históricas, como Anna Walentynowicz, também estavam no avião. Ela ficou conhecida como o estopim do colapso do comunismo na Polônia. Foi sua demissão do estaleiro de Gdansk que levou o sindicato Solidariedade a iniciar a pressão que acabaria derrubando o governo e todo o sistema.

Mas o acidente também causou literalmente um choque da Polônia com seu passado. A delegação assistiria a uma missa em homenagem aos mais de 20 mil poloneses mortos pelos soviéticos em 1940. Entre eles, estava a elite do país naquele momento. A floresta de Katyn, que se tornara o símbolo do aniquilamento da elite polonesa, voltou a assombrar o país ontem.

"O mundo contemporâneo não conheceu tragédia semelhante", disse o premiê Donald Tusk. Também estavam no avião sobreviventes do massacre de 1940.

A matança foi sempre negada pela União Soviética e, mesmo hoje, os russos relutam em abrir os arquivos daquela época. Para evitar qualquer polêmica, os russos ontem se apressaram em anunciar que os poloneses fariam parte da equipe que investigaria o acidente. Mas já indicaram que o piloto não seguiu as instruções da torre que pedia que pousasse em outro aeroporto em razão das condições meteorológicas.

Enquanto o avião tentava pousar, mil pessoas já aguardavam a comitiva oficial no local onde a missa seria celebrada em homenagem aos mortos de 1940. Segundo a agência de notícias da Polônia, a informação da queda do avião deixou todos chocados no local da cerimônia. O embaixador polonês na Rússia foi quem tomou a palavra para anunciar que não havia sobreviventes. O padre que celebraria a missa acabou rezando pelas vítimas, enquanto muitos choravam sem entender bem o que ocorrera.

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