Desastre reacende debate sobre futuro da Nasa

Em abril passado, o presidente da comissão de aconselhamento sobre segurança na agência espacial norte-americana (Nasa, por suas iniciais em inglês), Richard D. Blomberg, fez uma advertência pública sobre os crescentes problemas de segurança dos ônibus espaciais. "Eu nunca estive tão preocupado com a segurança dos ônibus como estou agora", afirmou Blomberg em depoimento ao Congresso. "Todos os meus instintos sugerem que a atual abordagem (de manter o programa apesar de repetidos cortes no orçamento na Nasa) está plantando as sementes para perigos futuros."Blomberg explicou que seu temor não era com os vôos previstos para o futuro imediato, mas com a perda de capacidade da Nasa para avaliar o risco crescente da utilização de um transportador espacial concebido nos anos 70."Uma das raízes da minha preocupação é que ninguém saberá ao certo quando a margem de segurança for ultrapassada."Algumas semanas mais tarde, cinco dos nove membros da comissão presidida por Blomberg foram demitidos depois de terem feito o mesmo tipo de crítica. Segundo The New York Times, um sexto integrante da comissão, um almirante reformado, pediu demissão em protesto.Junto com o choque e a consternação causados pela perda de sete astronautas da Columbia, a trágica confirmação, na manhã do último sábado, de que a margem de segurança foi superada alimenta um intenso debate sobre o processo de decisão da agência espacial norte-americana, seu custo para o país e a própria utilidade do ônibus espacial e dos vôos tripulados.O administrador da Nasa, Sean O´Keefe, teve encontros hoje com o presidente George W. Bush e com líderes do Congresso. Embora haja, da parte de Bush e dos congressistas, uma disposição favorável à continuação dos vôos do ônibus espacial, a proposta de orçamento que o presidente norte-americano enviou hoje ao Capitólio não prevê aumento significativo dos recursos da Nasa (US$ 15 bilhões, que se comparam com US$ 14,89 bilhões no ano passado) e mantém a tendência de declínio da participação relativa da agência espacial no orçamento federal.Esta, que já foi de mais de 4,5% no auge da exploração da Lua, no final dos anos 60, está reduzida a pouco mais de 0,5%.No final da semana, diversos especialistas manifestaram-se contra a preservação do programa. "Qualquer missão espacial específica que você queira fazer no espaço pode ser concebida e realizada de maneira mais barata, mais eficaz e mais segura com um veículo não tripulado", disse ao Wall Street Journal Alex Roland, um professor de História da Universidade Duke que foi, por oito anos, o historiador oficial da Nasa.Segundo ele, a agência espacial norte-americana põe astronautas em órbita em função mais de uma preocupação publicitária, de capturar a imaginação do público, que por razões científicas. De acordo com Rolands, os vôos tripulados "são puro circo".Theodore Postol, professor de Ciência, Tecnologia e Segurança Nacional no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, acredita que algumas missões podem justificar os vôos tripulados. "Mas é um risco exagerado fazer (dos vôos) um show, como foi feito no passado, e ter astronautas para conduzir experimentos no espaço que poderiam ser facilmente realizados por veículos-robôs", afirmou Postol.O argumento comercial usado para justificar as dezenas de bilhões de dólares que foram investidos no desenvolvimento do ônibus espacial, segundo o qual ele seria a ferramenta básica para lançamento, conserto e manutenção de satélites de comunicação e outras aplicações, foi abandonado depois do desastre do Challenger, que explodiu minutos após o lançamento, em janeiro de 1986.Desde então, o ônibus espacial não é usado para essa tarefa, cumprida agora pelos sucessores dos tradicionais foguetões da primeira fase da exploração do espaço. O fato de a exploração espacial não mais produzir os benefícios colaterais do passado para aplicações militares também reduz o apoio à Nasa em áreas influentes do governo e do establishment.Por outro lado, a ambiciosa missão original para a qual o ônibus espacial foi concebido, de mandar uma missão tripulada a Marte, tornou-se mais distante, à medida em que a administração e o Congresso foram reduzindo os recursos destinados à Nasa.Reconvertido em uma dispendiosa ferramenta na construção da Estação Espacial Internacional, o ônibus está hoje identificado com um projeto que é alvo de críticas crescentes na administração e no Congresso, em parte por causa de seus custos excessivos comparados com os benefícios que poderá trazer.Um problema, para a Nasa, é que os vôos tripulados estabeleceram sua identidade junto ao público. Outro, mais grave, é que, com a transformação da exploração espacial em rotina e o surgimento de novas fronteiras tecnológicas para serem desbravadas, a agência espacial perdeu a capacidade de recrutar os melhores talentos nas universidades e envelheceu.Hoje, o contingente de engenheiros e cientistas da Nasa com mais de 60 anos de idade é três vezes maior do que o daqueles com menos de 30 anos - e nos próximos cinco anos, perto de um quarto dos integrantes do primeiro grupo, que concentra o capital de conhecimento acumulado pela agência, atingirá a idade da aposentadoria compulsória.VEJA O ESPECIAL

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