AFP PHOTO / Juan BARRETO
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Descoberta de restos mortais em prisão venezuelana reabre debate sobre crise no setor

ONGs denunciam diversas irregularidades e violações dos direitos humanos, e afirmam que locais são escolas do crime, onde presos dispõem de piscina, pizzarias e boates

O Estado de S.Paulo

12 de março de 2017 | 19h40

CARACAS - A descoberta dos restos mortais de 14 pessoas na principal prisão da Venezuela, fechada temporariamente há cinco meses, reacende o debate sobre a crise penitenciária no país, entre denúncias de irregularidades e violações dos direitos humanos.

O número de mortos encontrados durante uma escavação nas instalações da prisão subiu para 14, anunciou neste domingo, 12, a Justiça.

"Até o momento, foram recuperados 14 corpos" na Penitenciária Geral da Venezuela (PGV), localizada na cidade de San Juan de Los Morros, informa um relatório do Ministério Público, que destaca que a descoberta ocorreu na quinta-feira 9. Segundo o texto, terão prosseguimento as investigações "relacionadas à escavação, descoberta, classificação e determinação da causa das mortes".

Na sexta-feira, a ministra de Assuntos Penitenciários, Iris Varela, anunciou em entrevista coletiva que haviam sido encontrados restos humanos "correspondentes a sete pessoas", horas depois de ter afirmado, em um primeiro balanço, que pertenciam a três vítimas.

No dia 28 de outubro, o governo concluiu o esvaziamento da prisão, após semanas de confrontos entre internos pelo seu controle e denúncias da morte de alguns deles por falta de alimentos e remédios.

Valas. A ONG Uma Janela para a Liberdade, que atua em defesa dos direitos dos presos, denunciou a existência na PGV de uma vala comum com um número de corpos muito maior.

Carlos Nieto, coordenador da organização, indicou que o número de mortos pode chegar a 100. "Todas as fontes que consultamos falam da existência de uma vala comum, em que se encontram restos de mais de 100 pessoas", disse o ativista.

A Justiça informou ter recebido "denúncias de parentes sobre desaparecimentos durante o processo de desocupação". A prisão abrigava 9 mil detentos, segundo a ONG.

A PGV está sendo reformada como parte de um projeto do governo para "pacificar" as penitenciárias e adequá-las aos padrões internacionais. Segundo Iris, 96 prisões foram incorporadas ao programa do governo desde julho de 2011, das quais 6 foram fechadas.

Denúncias. As ONGs denunciam também que, apesar do projeto do governo, as prisões da Venezuela são escolas do crime, onde os réus dispõem de piscina, pizzarias e boates. Da mesma forma, reportam irregularidades no cumprimento das penas pelos "pranes" (líderes dos réus).

No dia 28 de fevereiro, um dos principais bancos da Venezuela, Banesco, denunciou em sua conta no Twitter a existência de uma agência clandestina que usava a sua marca no presídio de Tocuyito, no Estado de Carabobo.

Iris afirmou, no entanto, que se tratava de uma pizzaria que os presos haviam batizado com o nome da instituição financeira e onde eles, em um projeto de reabilitação, praticavam atividades culinárias.

"Sim, existiam", afirmou Carlos Nieto, ressaltando que a existência de bancos ilegais em presídios venezuelanos é habitual, e servem para que os detentos troquem dinheiro com parentes e para que os pranes cobrem comissões de cerca de 20%. / AFP

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