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Gilles Lapouge
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Desconfiança israelense

PARIS - Avanço na questão nuclear iraniana: as negociações serão retomadas em 15 e 16 de outubro em Genebra, envolvendo Irã, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha (P5+1). A ofensiva de charme do novo presidente do Irã, Hassan Rohani, está no auge. Sucesso total, uma vez que o secretário de Estado dos EUA. John Kerry, ficou satisfeito.

Gilles Lapouge, Correspondente - O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2013 | 02h13

Antes de Rohani, o Irã era presidido por um personagem insano, meio diabólico, Mahmoud Ahmadinejad, que passava seu tempo "apagando Israel do mapa". Depois desse trágico palhaço, não foi difícil para seu sucessor seduzir seus interlocutores. Só um país não foi seduzido por Rohani: Israel. O primeiro ministro, Binyamin Netanyahu, disse que o gesto de Rohani é "cínico e hipócrita". Para Netanyahu, o iraniano é um lobo em pele do cordeiro.

Por que Rohani encenaria essa comédia? Simples: ele quer tirar o país do estrangulamento provocado pelas sanções, mas suas intenções não mudaram quanto ao programa nuclear. Neste debate, um outro protagonista se destaca: o russo Vladimir Putin.

Depois de ter avançado seus peões no xadrez da crise iraniana, manipular os americanos e retomar as estratégias da Guerra Fria, Putin se envolveu na discussão de todas as crises. Há um mês, afirmou que o arsenal químico sírio foi construído em resposta às armas nucleares de Israel. E inverteu o jogo. Enquanto o mundo todo se inquieta com os esforços do Irã para se dotar de uma bomba nuclear, a Rússia dirige seus projetores para um outro ponto do campo político: o armamento atômico israelense, que é substancial. Um estudo da revista Bulletin of the Atomic Scientist lembra que o país tem 80 ogivas nucleares, embora jamais tenha reconhecido oficialmente.

É preciso lembrar que Israel começou cedo a construir seu arsenal. Em 1960, um tratado secreto foi assinado entre a primeira-ministra Golda Meir e o presidente Richard Nixon. O objetivo era fazer frente à proliferação de armas não convencionais no Oriente Médio. Desde então, Israel fez tudo para conservar sua superioridade atômica em relação aos vizinhos. Em 1981, seus aviões destruíram o reator iraquiano de Osirak. Depois, bombardearam a usina nuclear de Deir ez-Zor, na Síria. Não é por acaso que, às vésperas da negociação, Putin traga à luz o desequilíbrio de uma região na qual Israel é uma potência atômica e o Irã busca sua bomba nuclear.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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